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terça-feira, 21 de julho de 2015

Oficina teatral para professores da rede pública com jogos e exercícios do Teatro do Oprimido.















Oficina teatral para professores da rede pública com jogos e exercícios do Teatro do Oprimido.

Relatório referente à ‘Oficina teatral para professores da rede pública com jogos e exercícios do Teatro do Oprimido’, ministrada na cidade de Tucano.

Inicialmente o projeto foi criado para atender a um grupo de professores da rede pública, porém no dia da oficina, os alunos foram chegando e à medida que eles iam se apresentando pude perceber que havia professores e alunos também. As inscrições ficaram sob os cuidados dos coordenadores da própria cidade. Devido também a essa heterogeneidade de funções, as idades entre eles também fora diversificada e em nada prejudicou o andamento do dia. Alguns jogos sofrerão pequenas modificações conforme eu fui percebendo a turma assim como o próprio plano de aula. Como eu não havia tido organização para xerocar os textos que iríamos ler em sala de aula, esta etapa não fora cumprida. Esse ocorrido não afetou negativamente a oficina que mesmo sem essa atividade acabou por terminar no horário previsto. A materialidade usada foi a cadeira em alguns exercícios. Os momentos que mais me chamaram a atenção foram:

1.    No jogo ‘as cadeiras no espaço vazio’, duas participantes me chamaram a atenção. A primeira foi uma professora. A imagem que ela assistia era a de quatro pessoas sentadas no chão, apoiando-se em suas cadeiras e ao redor de uma quinta em pé em sua cadeira colocada no centro. Enquanto todos atribuíram o maior poder a quinta pessoa em cima da cadeira no centro, essa docente/participante perguntou-me se ela poderia ter outra opinião e eu, prontamente, disse que sim. Gostaria de ver a sua diferença, pois até eu havia pensado como os demais. E ela me surpreendeu quando atribui maior poder a uma aluna que estava sentada no chão pela forma espontânea e tranquila que expressava. Achei bastante significativa essa leitura, pois ela mostrara uma forma de pensar individual e criativa.

“Como professor não devo poupar oportunidade para testemunhar aos alunos a segurança com que me comporto ao discutir um tema, ao analisar um fato, ao expor minha posição em face de uma decisão governamental. Minha segurança não repousa na falsa suposição de que sei tudo, de que sou o ‘maior’. Minha segurança se funda na convicção de que sei algo e de que ignoro algo a que se junta a certeza de que posso saber melhor o que já sei e conhecer o que ainda não sei. Minha segurança se alicerça no saber confirmado pela própria experiência de que, se minha inconclusão, de que sou consciente, atesta, de um lado, minha ignorância, me abre, de outro, o caminho para conhecer.” (FREIRE, 1998. P. 153).

A segunda foi uma participante que viu a seguinte imagem: quatro jogadores sentados em suas cadeiras de frente para a plateia e uma quinta sentada de costas para o público e de frente para os demais jogadores. Esta aluna atribuiu o maior poder para esta jogadora de costas, pois ela entendeu que aquela cena era a de uma sala de aula e que a aluna de costas representava a professora e por isso o maior poder e os demais representavam os alunos. Esta me chamou a atenção, pois percebi como muitas pessoas atribuem poder ao professor e esquecem-se que a força encontra-se (a meu ver) na dialética entre docente e discente. Ambos constroem a força neste processo horizontal de aprendizagem. Ambos trocam sabedorias e conhecimentos. Este jogo, por exemplo, sofreu alterações da minha parte.

2.    No jogo ‘as sete cadeiras’, uma participante me chamou a atenção. Conforme o objetivo do jogo, ela tinha de criar duas imagens com o uso de uma cadeira, onde a primeira imagem refletiria um maior poder e a segunda, um menor poder. Diferente do jogo anterior, a imagem gerada aqui era individual e não mais coletiva. A sua primeira imagem foi a dela sentada na cadeira estudando. Essa foi a imagem de maior poder para ela. A sua segunda imagem, foi uma pessoa sentada no chão e apoiada na cadeira com o cotovelo fumava um cigarro. Essa fora a de menor poder. Ela me chamou a atenção, pois enquanto estudante de um grupo de teatro e adolescente, ela se colocou como sujeito de sua história ao afirmar que seu maior poder era a sua busca pelo conhecimento enquanto seu menor poder era o vício. Interessante essa imagem de autonomia que ela criou. Muita gente tende a colocar o poder na mão do professor e achar que o discente é um mero depósito.

“A Estética do Oprimido é uma forma essencial de combater a Invasão dos Cérebros porque coloca o oprimido como protagonista do processo estético, não simples fruidor de arte.” (BOAL. 2009. p. 166).

3.    Na Técnica do Teatro Imagem, no jogo ‘imagem de transição’, as três cenas criadas para a imagem ideal me deixaram bastante satisfeito, pois nenhuma continha opressão. Geralmente, ao querer nos desoprimir, assumimos o lugar de opressor. No final de cada imagem ideal, eu perguntava se alguém da plateia gostaria de mudar alguma coisa. Ninguém quis. Na última cena, as imagens eram: a real, uma professora escrevendo no quadro e duas alunas sentadas no whatzapp e a ideal, a professora sentada de frente para as duas alunas. Pensando nas observações a cerca desta distância entre professor/aluno, deste poder concentrado mais no primeiro, eu resolvi mudar esta imagem. E coloquei os três de mãos dadas da seguinte forma:

professora    aluna
                     aluna   (imagem ideal proposta pelo grupo)



                       aluna
professora                aluna   (imagem após a minha modificação)

Colocando-as nesta segunda posição, busquei descentralizar o poder da professora e dividi-lo entre os componentes da instituição escolar, responsabilizando a todos.

“A segurança com que a autoridade docente se move implica uma outra, a que se funda na sua competência profissional. Nenhuma autoridade docente se exerce ausente desta competência. O professor que não leve a sério sua formação, que não estude, que não se esforce para estar à altura de sua tarefa não tem força moral para coordenar as atividades de sua classe. Isto não significa, porém, que a opção e a prática democrática do professor ou da professora sejam determinadas por sua competência científica. Há professores e professoras cientificamente preparados mas autoritários a toda prova. O que quero dizer é que a incompetência profissional desqualifica a autoridade do professor.” (FREIRE, 1998. P. 103).

4.    No momento da avaliação final, uma das alunas salientou que o que ela mais gostou na oficina foi o estímulo ao toque. Para ela, foi importante manter esse contato com os outros participantes uma vez que no dia a dia não há espaço para essa interação mais próxima. Ouvi-la falar sobre isto, deixou-me bastante feliz, pois a minha pesquisa teatral tem como um dos objetivos estimular o contato entre as pessoas. Acredito também que as pessoas pouco se tocam, se abraçam e se acarinham.


quinta-feira, 4 de junho de 2015

Caixa Sensória - O Objeto Polissêmico, o relato.

“O domínio de uma nova linguagem oferece, à pessoa que a domina, uma nova forma de conhecer a realidade, e de transmitir aos demais, esse conhecimento. Cada linguagem é absolutamente insubstituível. Todas as linguagens se complementam no mais perfeito e amplo conhecimento do real. Isto é, a realidade é mais perfeita e amplamente conhecida através da soma de todas as linguagens capazes de expressá-la.” (BOAL, Augusto. Teatro do Oprimido e outras poéticas políticas. 2011. p 180)

Uma caixa linda, transparente que em sua própria textura e forma já mobilizava os sentidos. Um caminho, muitos encontros, muitos amigos. Éramos quatro artistas e suas intervenções. Quatro formas de se pensar e sentir os sentidos. Jamile de criança era quem recebia os primeiros andarilhos. Vendava-lhes os olhos e o jogo sensório dava início. Texturas, aromas eram experimentados. Em seguida, Silas e as cicatrizes. Memória Emotiva que fazia vir à tona uma cor que era pingada numa bacia dourada. Ambos, artista e andarilho colocam as mãos lá dentro e olho no olho, as cicatrizes eram compartilhadas. No meio do caminho, ‘O Objeto Polissêmico’ proposto pela minha pesquisa sobre ‘As contribuições de Boal: jogos e estética’. O objetivo era mediar o contato do participante ou participantes com os objetos disponibilizados para que a obra de arte fosse criada a partir da relação de poder entre eles. Foi durante a intervenção que os caminhos nessa mediação foram se tornando mais claros. Por mais que eu já tivesse pensado previamente num texto para a explicação da atividade, foi no momento da criação que a fala foi se ajustando ao entendimento da comunicação. Todos os meus amigos artistas haviam criado um personagem para a sua intervenção (logo após a minha intervenção, tinha a de Jose com sua vovó, onde ela servia chá com jujuba dentro da xícara e biscoitos. As pessoas eram convidadas por ela mesma a se sentarem para tomar um chá e ouvir histórias) e eu havia decidido que por querer só mediar que não iria criar um personagem. Mas daí, que durante a instalação eu fui percebendo que como eu mediava deixando a pessoa livre para criar sua obra eu tinha mais tempo de perceber os outros artistas e comecei a perceber o andamento desta fila de pessoas dentro da caixa. Então, comecei a mediar o fluxo dos andarilhos, pois tínhamos um tempo previsto para começar as palestras sem atrasos exorbitantes. Foi então, que comecei a me perguntar se eu não havia criado o personagem-mediador ou pelo menos desempenhava seu papel de mediação. Foi importante perceber um rapaz quando o perguntei se ele gostaria de criar sua obra de arte. Ele me olhou como se por um momento pudesse duvidar daquela possibilidade e pude entender que era justamente essa distância entre arte e observador que Boal se propunha a diminuir ou, até mesmo, excluir. Poder entregar nas mãos das pessoas os meios de produção das mais variadas linguagens para que elas pudessem conhecer a sua realidade e se capacitarem de modo a transformá-la. Ao invés de apresentar uma obra de arte para o espectador, mobilizar o mesmo a criar a sua obra de arte e deixar de ser espectador/objeto/passivo para sujeito transformador. Acredito que assim como em mim, em todos os outros artistas que compunham a caixa sensória e Fabrícia, Marina e Célida que não estiveram diretamente na caixa, mas ajudaram a construí-la devam também ter sido provocadas pelas intervenções. Observando os registros em casa é que pude me encantar ao observar as criações feitas e compreender um pouco mais como alguns pensamentos são expressos e comunicados através de uma nova linguagem que não a idiomática. Conforme a tabela abaixo, acredito que a comunicação da realidade tenha se dado através da linguagem artística (escultura) oferecida ao andarilho e que a constatação desta realidade tenha se dado através dos objetos utilizados (sendo que esses objetos tinham valores simbólicos como religião, sexualidade, educação, tempo, capitalismo, gênero, etc)e das suas relações de poder. Tanto os objetos como as relações de poder foram pensados enquanto materialidades possíveis assim como próprio escultor que traz em si a tríade do ser sensível/consciente/cultural. A minha dúvida é se a transformação desta realidade tenha se dado através do ato da criação (a organização desses objetos utilizando-se das relações de poder entre eles e o espaço e entre eles mesmos) ou se eu precisaria ter orientado-os da seguinte forma: crie uma obra de arte a partir das relações de poder entre os objetos disponibilizados e escolhidos e, em seguida, propor que eles modificassem aquela estrutura para uma que possivelmente fosse uma solução ou evolução. Discutindo com um amigo artista e tendo como base o quadro abaixo, busco a definição de léxico e sintaxe. O primeiro refere-se a dicionário e o segundo ao componente do sistema linguístico que determina as relações formais que interligam os constituintes da sentença, atribuindo-lhe uma estrutura. Desta maneira, acredito que a transformação da realidade se daria na segunda escultura criada, pois a primeira seria só a expressão da realidade.


QUADRO DE DIVERSAS LINGUAGENS.


COMUNICAÇÃO DA REALIDADE
CONSTATAÇÃO DA REALIDADE
TRANSORMAÇÃO DA REALIDADE
Linguagem
Léxico (vocabulário)
Sintaxe
Idioma
Palavras
Oração (sujeito, objeto, predicado verbal, etc.)
Música
Instrumentos musicais e seus sons (timbre, tonalidade, etc.) e notas
Frase musical, melodia e ritmo
Pintura
Cores e formas
Cada estilo possui sua própria sintaxe
Cinema
Imagem (secundariamente, a música e a palavra)
Montagem: corte, fusão, superposição, fade-in, fade-out, travelling, etc.
Teatro
SOMA DE TODAS AS LINGUAGENS POSSÍVEIS: palavras, cores, formas, movimentos, sons, etc.
AÇÃO DRAMÁTICA



sexta-feira, 29 de maio de 2015

Caixa Sensória - O Objeto Polissêmico, a Intervenção.

O objeto polissêmico.


Nesta intervenção na caixa sensória, eu parto de um bloco de jogos proposto por Boal chamado de ‘O objeto polissêmico’. A minha proposição na caixa é a de reunir uma quantidade razoável de objetos para que o(s) visitante(s) criem a sua obra de arte.

A criação da obra de arte.

Os objetos estarão disponíveis e expostos a fim de que o(s) visitante(s) crie(m) sua obra de arte, organizando uma estrutura com estes objetos partindo das relações de poder entre eles. Por fim, o(s) visitante(s) intitulará sua obra e eu registrarei fotografando. Para a entrada do próximo(s) visitante(s), os objetos serão espalhados (marco zero). No caso de mais de uma pessoa aparecer, o grupo deverá criar uma obra coletiva.

A escolha dos objetos.

Esta escolha não é aleatória, ela parti dos seguintes pressupostos:

1.    Objetos simbólicos (cruz, camisinha, remédios, etc.): objetos que indiquem algum valor seja religioso, sexual, etc.
2.    Objetos grandes, médios e pequenos.
3.     Objetos que sejam personificados: bonecos, bichos de pelúcia, etc.



terça-feira, 26 de maio de 2015

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Relatório do ato performático "Banquete do nada".


Este ato performático surge a partir da materialidade, do pré-texto 'Pássaro azul'. Como dialogar este pré-texto com o contexto político que acabamos de viver ? Lendo a peça teatral, deparo-me com o nono quadro:

FELICIDADE GORDA - Sou a mais gorda entre as Felicidades, a Felicidade-de-ser-rico.  Em nome de minhas irmãs, peço a você e a sua família que venham honrar o nosso jantar infinito. Ficarão no meio do que há de melhor entre as verdadeiras e grandes Felicidades deste mundo.  Permitam que lhes apresente as principais dentre nós. Aqui está minha nora, a Felicidade-da-vaidade-satisfeita, cujo rosto é tão graciosamente balofo. (A Felicidade-da-vaidade-satisfeita cumprimenta com ar protetor.) Aqui estão  a Felicidade-de-beber-quando-não-se-tem-mais-sede, e a Felicidade-de-comer-quando-não-se-tem-mais-fome, que tem pernas de macarrão. (Cumprimentam, cambaleantes.) Aqui, a Felicidade-de-ignorar-tudo, surda como uma porta, e a Felicidade-de-não-compreender-nada, cega como uma toupeira.  Esta é a Felicidade-de-não-fazer-nada, e a outra, a Felicidade-de-dormir-mais-do-que-o-necessário; tem mãos de miolo de pão, e olhos de geléia de pêssego.  Aqui, finalmente, a Risada Espessa, aberta até as orelhas, e à qual ninguém pode resistir ...  

E a partir desta fala, começamos a discutir como seria este ato. E as ideias foram surgindo até definirmos que se trataria de um banquete. Mas como pensar em comida quando se tem tanta gente passando fome ? E assim, surgiu o banquete do nada. Personagens que mais do que simples ou complexos indivíduos, representam felicidades ilusórias e disfarçadas baseadas na ignorância de uma população pobre para que se mantenha a riqueza dos que dominam e controlam. Fazer um banquete com comida seria um ato contraditório pois apresentando-o na rua, que 'doce violência' seria essa aos estômagos de quem não tem o que comer. E, então, surge um texto de Brecht adaptado:

'A Padaria'

Vocês que acabaram
De comer
Permitam que mostremos
Nosso incansável esforço para conseguir algo para comer
A comida mais modesta já é suficiente.
Pedimos que vejam
Nosso esforço incansável para conseguir trabalho!
Infelizmente, comida e trabalho
Estão submetidos a leis eternas,
Desconhecidas.
Mas não param
De cair
Pelas grades no asfalto
Pessoas sem nenhuma marca
Ou indicação 'cair'
De repente, sem ruído, em rápida queda
Pessoas que caminham ao nosso lado, felizes, caem
Em meio à torrente humana
Seguindo seleção imprecisa,
Seis entre sete caem, mas o sétimo
Vai ao refeitório.
Quem de nós será o próximo?

E, assim, fomos nos encontrando nas reuniões do PIBIC para irmos dando continuidade a este processo criativo. Começamos a confeccionar flores azuis (referência ao Pássaro azul e ao fato de estarmos em época natalina que também a peça teatral traz). Abaixo, segue todo o roteiro do ato performático que realizamos na Praça da Inglaterra, no Comércio, Cidade Baixa.

MACRO-ROTEIRO DE AÇÕES: ATO ESPETACULAR “BANQUETE DO NADA”

Roteiro tecido a partir de impressões sobre o nono quadro da obra O Pássaro Azul, de Maurice Maeterlinck e o texto inicial da peça dramática A Padaria, de Bertolt Brecht. As ações foram pensadas visando uma interação direta com o espaço da Praça da Inglaterra, no centro comercial de Salvador.

01. PRIMEIRA AÇÃO: Esta ação refere-se a chegada dos performers no espaço em um processo com três instantes distintos. No primeiro instante varrem a praça coletivamente, num movimento convergente das extremidades para o centro da praça, enquanto varrem cantam a canção de Nelson Cavaquinho “É tão triste cair” (ver abaixo); depois recolhem o lixo. Após, ambientam o espaço com defumadores e flores azuis de papel (as flores completam espaços da natureza em desfalque. Ex: portal ou um troco sem vida). Toda a ação é feita com distanciamento atoral e com a participação de todos. Depois iniciam uma caminhada por um espaço demarcado da praça por uma lona azul que demarca o espaço/área de jogo, interagem com os transeuntes a partir do exercício do “cair” e da frase do texto de Brecht “Pessoas que caminham ao nosso lado, felizes, caem”. Outras frases podem ser incorporadas a caminhada.

"Ontem subiste, eu desci
Hoje eu subo, tu desces
É tão triste cair.”

02. SEGUNDA AÇÃO: Esta ação refere-se à cena específica do banquete. Um performer toca um sino de metal, todos os que varriam vestem seus figurinos assumindo personagens e exibindo máscaras corporais correspondentes às felicidades citadas por Maeterlinck no Pássaro Azul. Após todos vestidos e instalados no espaço, o performer toca novamente o sino convidando as felicidades para um banquete. O performer apresenta todas as felicidades como se fosse um desfile de celebridades, cada uma recebe uma placa com a identificação de seu status (invejosa, vaidosa, gulosa...). Após apresentadas, todas se sentam e o performer serve os pratos brancos vazios, talheres e um guardanapo de pano. Toca-se novamente o sino anunciando que podem comer a vontade o primeiro prato – a cada novo prato servido toca-se o sino e os pratos anunciados são correspondentes a trechos do nono quadro da obra de Maeterlinck (ex: um manjar de doce crueldade). As felicidades demonstram muita satisfação e desejo sobre o banquete, elegantemente estendem os guardanapos e vendam-se. Ali comem um banquete imaginário, com os olhos vendados. As felicidades são exageradas e podem ser grotescas, estranhas, rudes, sarcásticas.

03. TERCEIRA AÇÃO: Esta cena refere-se ao momento de transição e finalização do ato. O último prato servido poderá ser trazido pela personagem Luz, que serve em uma baixela (ou algo parecido) um pássaro azul para cada felicidade. Este momento marca a transição das “felicidades gordas” para uma tomada de consciência sobre a felicidade simples. Os performers continuam o andamento da cena em um ritmo desacelerado, retiram a vedas e iniciam um processo lento de passagem do grotesco ao humano. No momento da cena a personagem Luz faz-se uma leitura de um recorte do texto de Brecht.

(LEITURA DO TEXTO 'A PADARIA')

Motivamos a partir do contato com o pássaro a transformação das personagens e do espaço. Quando a Luz coloca o pássaro nos pratos das felicidades estas despertam, retiram as vendas dos olhos e criam uma relação com aquele objeto de encantamento e brincadeira. Após este momento instalamos na praça enfeites, linhas, macramê, em fim, tecemos um espaço lúdico e fantasioso – um presente de natal (poderemos utilizar frases do “Pássaro Azul” nesta ação). Podemos finalizar com uma ação no contexto de coralidade com todos os performers encontrando-se no centro da praça e juntos no exercício do “cair” não caem e finalizam sustentando-se pelos apoios dos ombros.

SENSAÇÕES AO FINAL DA APRESENTAÇÃO.

Como cada um escolheu qual felicidade iria representar segundo um pecado capital, eu escolhi a felicidade de não se fazer nada, pensando na preguiça. E o teatro tem este poder de nos confrontar com nossos próprios demônios. Enquanto, buscava corporalmente expressar esta inação da minha felicidade, eu me via buscando em mim mesmo em quantos momentos eu fui aquela felicidade, a de não fazer nada. Não me refiro ao descanso, ao ócio criativo, mas à preguiça em excesso de não fazer nada por ninguém nem por si. De como atamos nossas mãos e pés, quando sendo livres deveríamos voar como o Pássaro azul. Agradeço a todo o grupo Célula por esta investigação preciosa que me faz questionar a cada dia o meu lugar e o do outro.

domingo, 15 de junho de 2014

Relatório da oficina "Percurso criativo / ato performático".




Essa oficina foi realizada em dois dias na semana da 'calourada2014'. Foi bastante interessante ministrar uma oficina para alunos de direito. Perceber o processo de desenvolvimento de cada aluno e dialogar com eles durante este processo. Apesar de um plano de aula, a aula ia pulsando conforme esta troca. Eu os instruía, orientava, mobilizava-os e em resposta, eu era provocado a me repensar e repensar a minha mediação. E este foi um ponto alto e importantíssimo, criar junto com eles. Como já havia ministrado uma oficina anteriormente, tendo como bibliografia o livro "Improviso para o teatro", de Viola Spolin, a minha mediação era presente a fim de que eles não perdessem o ponto de concentração, o problema a ser resolvido. Declaro que não fiz isso conscientemente nos primeiros minutos, mas a medida que observava a minha conduta fui relembrando deste meu histórico. Orientá-los sem indução autoritária me fez compreender um pouco a respeito da fala de Paulo Freire quando ele afirma que o aluno é o sujeito e não objeto da educação. Percebi na prática, observando a postura deles no primeiro e segundo dia de oficina, que havia ocorrido um desenvolvimento de consciência e sensibilidade, não só deles como minha também. É lindo como Paulo Freire tem razão ao afirmar que o professor se faz na sua prática e que nós também aprendemos ensinando. Buscar este diálogo horizontal, esta troca não é tarefa fácil. O poder (no meu caso, o domínio de uma linguagem teatral) pode nos levar a soberba e humildemente aceitar que não somos donos da verdade é bastante instigante até para que o processo de criação se dê da melhor maneira possível. Durante a oficina, fui percebendo como um simples objeto, uma fotografia podem mobilizar o 'criador a criar a sua criação'. Como uma mesma frase pode ser dita de formas diferentes tendo como móbil, objetos diferentes. No caso específico de um dos alunos, o Rafael, uma colher de pau serviu para que ele dissesse uma frase de forma interrogativa, dita anteriormente como afirmação. Foi bastante gratificante ouvir dos alunos que com o passar da oficina, eles buscavam resignificar os objetos. Observar os outros integrantes do PIBIC ministrando a oficina também nos ajuda a aprender. Observar a ambientação que a Jamile fez e ouvir dos alunos o quanto esta ambientação os ajudou, fez-me repensar a forma caótica e excessiva com a qual disponibilizei os objetos e as fotografias. O quão é importante que o ambiente seja permissivo. Saldo positivo no fim das contas. 

Nilson Rocha.