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quinta-feira, 18 de junho de 2015

2. Fichamento do livro "A Estética do Oprimido", de Augusto Boal. (EM CONSTRUÇÃO)

Introdução.

“O pensamento sensível, que produz arte e cultura, é essencial para a libertação dos oprimidos, amplia e aprofunda sua capacidade de conhecer. Só com cidadãos que, por todos os meios simbólicos (palavras) e sensíveis (som e imagem), se tornam conscientes da realidade em que vivem e das formas possíveis de transformá-la, só assim surgirá, um dia, uma real democracia.” (BOAL. p 16).

RESUMO COMENTADO.

Boal fala sobre o analfabetismo da palavra (escrita) e sobre o analfabetismo estético que nos impede de pensar, de criar, de produzir conhecimento artístico. As sociedades capitalistas são adestradas pelo pensamento único e dominante que busca determinar comportamentos, ideias, sonhos, desejos, etc. Este pensamento se define como único não por inevitavelmente o ser assim, mas por obrigatoriedade imposta por quem o domina. Desta forma, o autoritarismo estético marginaliza toda e qualquer outra forma de se pensar que não a deles. Esta forma de opressão se dá através dos meios de comunicação, utilizando das imagens, sons e palavras. Mesmo que se saiba ler e escrever, não se estará livre deste tipo de analfabetismo. É preciso conscientizar-se a respeito da realidade para transformá-la.

“Arte é o objeto, material ou imaterial. Estética é a forma de produzi-lo e percebê-lo. Arte está na coisa; Estética, no sujeito e em seu olhar.” (BOAL. p 22).

Capítulo 1 - Os dois pensamentos, simbólico e sensível – um novo conceito de aura e arte, uma Nova Estética.

O pensamento sensível e o pensamento simbólico na criação artística.

“Estética é uma relação sujeito-objeto, concordo: o objeto de desejo depende do sujeito desejante para que possa ser desejado – em si, não o é. (...) também assim a apreciação do Beijo de Judas, de Giotto, depende da percepção de quem o mira – será beijo amigo ou trágica traição: a capacidade perceptiva é condicionada pela religiosidade ou não do observador, e pelo seu conhecimento histórico.” (BOAL. p 26).

“(...) mas afirmo que o ato de pensar com palavras tem início nas sensações e, sem elas, não existiria, embora delas se desprenda e se automatize até à sua mais total abstração.” (BOAL. p 27).

“Pensar é organizar o conhecimento e transformá-lo em ação, que pode ser fala ou ato, sendo que fala é ato. Pensamento é ação que transforma o pensador, o interlocutor e a relação entre os dois. Que podem ser a mesma pessoa.” (BOAL. p 29).

Belo, Bonito e Feio.

“’O feio é belo!’ – não há nisto nenhuma contradição, pois bela é a verdade escondida que a arte revela! O Belo é o reluzir da verdade através dos meios sensoriais – dizem alguns filósofos, e eu concordo; porém... qual verdade?” (BOAL. p 32).

As verdades de cada cultura.

“(...) Quando a cultura de uma época ou país é universalmente aceita como sendo a melhor, única e mais perfeita, é porque a opressão ali é universalmente exercida, sem contestação.” (BOAL. p 36).

O sublime e a ética.

“Assim como a cosmetizada palavra Estética, a Ética tem sido amesquinhada quando entendida como sinônimo de bom comportamento. Ética é o caminho por onde se pretende chegar ao sonho de humanizar a Humanidade. A ética repugna a persistência do instinto predatório em sociedades humanas, cujos resíduos selvagens ainda existem em nós. Contra o aspecto predatório animal do ser humano, a ética busca criar relações solidárias.” (BOAL. p 39).

Um novo conceito de aura e arte, uma Nova Estética.

“(...) através dos tempos, houve um deslocamento nas formas de apreciação da obra de arte e no seu uso. Esse deslocamento vai do início da própria arte, quando desempenhava uma função ritual, até os tempos modernos, quando, graças à multiplicação mecânica, pode-se expor a mesma obra a um público diverso e heterogêneo, em muitos lugares e ao mesmo tempo.” (BOAL, p. 41).

“Em que momento surge a aura? Sabemos que qualquer objeto, qualquer que seja sua finalidade, deve ser construído antes de ser usado. No caso de objetos artísticos – que são metáforas substantivas, isto é, são matéria -, a sua construção física é anterior à sua finalidade e aos significados que possam vir a ser, neles, projetados. A aura se desenvolve depois da criação do objeto, não antes, quando só existia, imaterial, na mente do artista. A construção do objeto de arte precede sua utilização, religiosa ou secular.” (BOAL, p. 42).

“Também nos rituais da igreja católica os sacerdotes escondiam o significado de suas missas em latim. A democratização da fé operada pelo Concílio Vaticano II, ao permitir que as missas fossem celebradas nas línguas locais dos fiéis, deu volta atrás com o recente papa Bento XVI que, se não obrigou, ao menos permitiu que outra vez fosse usado o latim diante dos fiéis, intimidados por essa língua, hoje solene. Esse ato obscurantista teve a intenção de fortalecer a autoridade eclesiástica aumentando a ignorância dos fiéis – o Mistério funciona como fonte de poder – aquele que o possui, possui o poder da Revelação!”. (BOAL, p. 44).

1.1. O corpo humano, social desde antes de nascer.

Um corpo vem ao mundo.

“Não possui nenhum conhecimento a priori, no sentido Kantiano, que ultrapasse os limites do que lhe é orgânico e, nele, singular. Não é página branca, pois traz consigo seus cinco sentidos, que mesmo antes do nascimento já lhe provocavam prazeres e dores – emoções. Traz seu código genético, físicas necessidades vitais e, mais tarde, desejos e subjetividades.” (BOAL, p. 50).

“Seus sentidos já existiam em desenvolvimento dentro do ventre materno e já guardavam memórias. Mesmo antes de estar formado, o cérebro é in-formado e as informações sensoriais recebidas passam a fazer parte das suas estruturas sensitivas e, mais tarde, cognitivas. A informação torna-se parte do seu sistema nervoso.” (BOAL, p. 51).

“As informações vindas de fora e do corpo em fase de construção fazem com que os neurônios sejam formados socialmente (neurônios+informações sensoriais) desde antes do nascimento do infante. Neurônios que, ao serem produzidos, eram puros, já não o serão ao se integrarem começando a trabalhar em equipe, jamais sozinhos!” (BOAL, p. 53).

“(...) Quando algo grave e emocionante acontece em algum estágio das nossas vidas, situações de risco e perigo ou de intenso prazer, essas estruturas emocionais perduram vivas em nossa memória oculta. Muitos desses eventos acontecem com violência no início da puberdade. Quando, décadas mais tarde, uma nova situação a elas se assemelha, regredimos àquela idade-refúgio e tendemos a agir como se ainda tivéssemos aquela idade. Voltamos a ser crianças.” (BOAL, p. 56).

Sentidos são seletivos.

“Seus primeiros contatos com o mundo exterior são de natureza sensorial. Alguns permanecem nesse nível, como a dor de estômago, o frio e o quente, a fome. Quando, porém, são estruturados pelo pensamento, tornam-se Estéticos. A Estética nasce com o bebê – não há o que temer.” (BOAL, p. 58).

Cérebro e conhecimento.

“Sensações não nos vem isoladas nem puras: recebem e produzem emoções específicas em momentos precisos. Se o bebê mama, o estômago saciado e o sabor do leite se associam ao prazer de tocar o corpo da mãe, sentir seu cheiro, ouvir sua voz. Se ouve um barulhento caminhão, seu corpo estremece e perde harmonia, física e psíquica. Cada sensação está envolta em emoções e memórias.” (BOAL, p. 60).

“Quanto mais se desenvolvem seus músculos e se organizam seus sentidos, mais ele compreende que pode não apenas conhecer e se associar ao mundo, mas também transformá-lo. Se levarmos uma criança à praia, com areia ela fará esculturas e se descobrirá escultora. Se lhe dermos papel branco e lápis de cor, ela se descobrirá pintora. Brincando com peças de madeira, a criança organiza esculturas como, mais tarde, com palavras, organizará ideias e falas.” (BOAL, p. 61).

“Esta forma de pensar sem palavras e de se relacionar com o mundo é uma forma estética de conhecê-lo. As linguagens estéticas – música, pintura, dança etc. – são cognitivas, isto é, em si mesmas, são conhecimento. As linguagens simbólicas – línguas: português, espanhol, inglês, francês, esperanto, e as línguas regionais de surdos-mudos, gestos convencionados etc. – são informativas: transportam conhecimento. A maneira de fazê-lo, no entanto, é cognitiva.” (BOAL, p. 62).

1.2. Palavra, a maior invenção humana.

Gênese da palavra.

Do pensamento sensível nasce o pensamento simbólico.

“Significante (aquela mulher) e significado (mãe) estão colados; só quando se descolam surge a linguagem conceitual, simbólica. Só quando se triangula esta relação, aí começa o parto do conceito. Quando o bebê percebe outra pessoa chamando outra mulher de mãe, quando vê filhos e mães, passa a grupar essas unicidades em um conjunto. Surge a linguagem simbólica, formada por conceitos descolados de realidades sensíveis.” (BOAL, p. 65).

“Em certas regiões da África, orangotangos conseguem criar uma linguagem que inclui sons de convite ou negação, chamamentos, etc. Um grito previne os filhotes de que não devem se pendurar naquela árvore de galho quebrado – é perigosa. Mas esses primatas não compreendem o conceito de perigo. Grito de advertência é relação concreta com a árvore presente, mas não revela o perigo de todas as árvores de galhos quebrados – só daquela.” (BOAL, p. 66).

“As necessidades e os desejos do bebê mais avançado no tempo faz com que ele imite ou invente sons que se transformarão em palavras. Com o surgimento do simbólico, as duas formas de pensar passam a coexistir. O pensamento sensível busca a amplitude do simbólico e quer falar, não apenas sentir. O pensamento simbólico busca a concreção do sensível, quer sentir e fazer sentir, não apenas enunciar – a voz da palavra, sensível, dá precisões concretas ao seu significado simbólico.” (BOAL, p. 67).

“Pelos estímulos repetidos, o cérebro do infante começa a formar uma gramática residente em redes neuronais. Esta é a gramática seminal, constituída predominantemente por sujeito, verbo e objeto direto: eu quero aquilo. Gramática semelhante em todas as línguas, porque semelhantes são as necessidades humanas básicas: físicas, fisiológicas e sociais.” (BOAL, p. 68).

“Palavras são símbolos. Para que um símbolo exista, é necessária a concordância dos interlocutores. Como quase tudo na vida social, também as palavras se tornam objeto de encarniçadas lutas. A etimologia mostra a correlação de forças da sociedade no momento em que fabricou uma palavra a fim de revelar – ou esconder – a verdade. A semântica torna-se um campo de batalha em que todas as forças em conflito procuram a cada palavra, atribuir-lhe o sentido que mais lhe convenha. A luta semântica é luta pelo Poder.” (BOAL, p. 70).

Do grito animal à palavra, da palavra à lei, e da lei ao dogma.


“Toda palavra é grito! Grito primata e primário que permanece vivo no bojo de cada palavra que pronunciamos, cada poema, frase de amor, cada artigo de cada lei.” (BOAL, p. 71).

"A lei, que resulta de uma estrutura beligerante de forças políticas, morais, sociais e econômicas em cada sociedade e em cada momento da sua fabricação, é sempre apresentada não como expressão da vontade dos vencedores, como de fato é, mas como inspiração do genérico povo (...)"(BOAL, p. 71).

"Para que a lei permitisse a existência de uma justiça ética e não apenas condenatória dos adversários e absolutória dos aliados, deveria pesar fatos e significados, hierarquizados pelo bem maior. Não é que acontece. Victor Hugo, irônico, comentou: 'A lei é igual para todos: proíbe tanto ao pobre como ao rico roubar um pão para matar a fome!'" (BOAL, p. 72).

"A lei tem corpo e alma. O corpo da lei existe em pedra ou papel - ele se aplica aos oprimidos. A alma se inventa a partir do caráter e das necessidades dos opressores! O espírito da lei é a margem de manobra que permite ao juiz decidir como lhe aprouver. Ao manipular a palavra nua, o juiz a veste e adorna com os significados que melhor respondam aos seus interesses e desejos, quase sempre estranhos ao fato julgado. O juiz, como artista que também é, escolhe ou inventa significados para a palavra escrita - esta é a sua arte." (BOAL, p. 72).

“Seguir à risca, dogmaticamente, a melhor cartilha ou o mais judicioso conselho pode-se revelar um desastre. Conselhos e cartilhas podem ser símbolos de correto comportamento, mas catastróficos se aplicados a situações concretas, diferentes daquelas que os motivaram. Uma análise estrutural não pode ignorar conjunturas. Grandes erros de opções políticas já foram cometidos adotando-se como dogmas certas análises corretas de realidades feitas no passado em situações sociais revolutas.” (BOAL, p. 74).

“Os dogmas impediam – em muitos países ainda impedem! – que as mulheres votassem porque... são mulheres. Obrigavam e obrigam negros a sentar nas últimas filas dos ônibus porque... são negros. (...)” (BOAL, p. 75).

“Quem tem o poder da palavra, da imagem e do som, tem a seu dispor a invenção de dogmas religiosos, políticos, econômicos e sociais... e também dogmas de arte e da cultura. Nestes, os seres humanos são divididos em artistas e não artistas, como se fossem divididos em nobres e plebeus. Isto é dogma, e dos mais abjetos.” (BOAL, p. 75).

Metamorfoses e usos abusivos da palavra.

“As palavras são inquietas, avançando novos significados. Escravo deriva do latim eslavus, transformada em esclavus no século X e, mais tarde, em escravo, cativo. A mudança semântica se explica porque germanos e bizantinos escravizaram grande parte dos indivíduos eslavos na Europa Central durante a Idade Média. A palavra eslavus era entendida como aquele ser humano que podia ser castrado de suas vontades e desejos, ser dominado e servir. Era necessário inventar uma palavra para que a escravidão adquirisse cidadania e se tornasse aceitável... O homem deixa de ser homem e torna-se apenas escravo.” (BOAL, p. 77).

“O pensamento sensível, apesar da progressiva predominância do simbólico, nele subsiste. Esmaecido, subsiste na voz da palavra falada, na sintaxe da escrita e nas imagens que assomam. Quando pronunciamos uma palavra – em especial substantivos -, ela não nos vem como simples som e sentido. Jamais sozinhas, ainda que pálidas, surgem em nosso consciente, subconsciente, pré-consciente e inconsciente, nuvens esvoaçantes de imagens, segundo a cultura a que pertencemos, nosso passado pessoal e o momento que vivemos.” (BOAL, p. 79).

Um povo estranho... tão familiar.

“(...) Mesmo sem palavras para nomeá-las, as cores existem; como é certo que pensamos tudo que nossos olhos veem – ver, ao contrário de apenas olhar, é uma forma de pensar -, podemos imaginar que os pirahãs a elas se refiram por meios sensíveis, não verbais: zumbidos. Aos números, talvez associem trinados ou gestos manuais simbólicos. Vocabulário em gestação. No entanto, os meios sensíveis têm seus limites: para pensar o futuro além do anoitecer, as palavras são necessárias. Para pensar o passado além do há pouco tempo, as palavras são indispensáveis. Essa pobreza vocabular talvez explique, ou seja causa, da ausência, nessa cultura, de qualquer forma de ficção ou mitos de origem. Olhando o passado, os pirahãs não vão além de alguns anteontens; seu futuro é sem amanhãs. Outra interessante característica desse estranho povo é que seus indivíduos, de tempo em tempo, mudam de nome próprio porque acreditam que o avançar da idade os transforma em outras pessoas. Mentiriam se guardassem os mesmos nomes: já não são quem foram.” (BOAL, p. 81).

Harmonia e colisões.

“Nenhuma das duas formas de pensar pode proporcionar, sozinha, a mais completa percepção do mundo, da qual só seremos capazes se formos capazes de conjugá-las. Da mesma forma que devemos aprender a ler e escrever, devemos aprender a ver e ouvir. O abandono deste ou daquele pensamento causa graves danos à expansão da personalidade.” (BOAL, p. 82).

Arte como política.

“Algumas formas artísticas se limitam a provocar sensações sem conhecimento organizado, nem pensamento organizativo, sem história nem futuro, como se a pura sensação estanque fosse a razão da arte. Não é! Explicações não são necessárias, mas a razão sensível é razão.” (BOAL, p. 83).

“Oscar Wilde dizia que a arte não imita a vida, como se diz: é a vida que imita a arte. Como Wilde tem sido associado a frivolidades – por sua obra e vida, ou por puro preconceito -, esta afirmação é interpretada como brincadeira, boutade. No entanto, é profunda e verdadeira! O cinema e o teatro são capazes de infiltrar comportamentos em suas plateias: a empatia é a responsável.” (BOAL, p. 85).

Mentiras e hipocrisia.

“Com a invenção da palavra, o ser humano, criando uma outra forma de percepção do mundo, criando um outro mundo, com esse gigantesco salto inventou a mentira em suas formas mais comuns: o falso testemunho e a calúnia, amplamente usados como armas de poder.” (BOAL, p. 87).

“Com a mentira surgiu a hipocrisia, que é a possibilidade de se dar uma contínua aparência de verdade ao que sabemos ser falso. É curioso lembrar que a palavra grega hupokrisia ou hupocritês, entre seus vários sentidos, tinha o de “desempenhar um papel em uma peça”: a arte do ator. Significava também: ‘A resposta do oráculo’.” (BOAL, p. 87).

“Um trágico exemplo dos sentidos humanos esmaecidos pelo surgimento da fala aconteceu no dia 26 de dezembro de 2004, quando poderosos tsunamis devastaram várias cidades da Ásia e da África, matando mais de trezentas mil pessoas. No entanto, no Parque Nacional do Sri Lanka, povoado por animais silvestres e selvagens, nenhum morreu, apesar da tremenda inundação provocada pelas ondas de doze metros de altura. Salvaram-se elefantes e chacais, pássaros e roedores, e até desajeitados crocodilos conseguiram escapar – fugiram a tempo para regiões elevadas quando perceberam as primeiras vibrações sísmicas e os primeiros longínquos ruídos do fundo do oceano que se abria.” (BOAL, p. 89).

Definha, em nós, o artista.

“Com a introdução da palavra, simbólica, as linguagens estéticas (sinaléticas) esmaecem e se tornam menos conscientes e consistentes. Limitamos nossa percepção a caminhos cansados, e o nosso corpo se mecaniza nas ações dos rituais cotidianos. Prestamos atenção ao significado atribuído às palavras – não ao timbre, volume, ritmo, características sensoriais da voz.” (BOAL, p. 90).

“(...) Quando ultrapassamos esse limite especulativo e, como cidadãos-artistas, criamos nossa própria obra de arte invadindo a cena e construindo alternativas à situação mostrada, no teatro; quando, com nossas mãos, pintamos um quadro, fabricamos uma escultura, nas artes plásticas ou nas artes da palavra, quando escrevemos poemas ou narrativas – nestes casos estaremos inventamos o terceiro ângulo do triângulo estético: eu vivendo minha vida social e pessoal; a realidade que me serve de modelo; e a minha imagem da realidade possível. Esta visão metafórica triangular nos estimula a descobrir aspectos invisíveis da realidade. Em teatro, o espectador-cidadão se multiplica por dois: é quem é, e se torna parte da sua própria obra de arte teatral sendo o personagem.” (BOAL, p. 91).

RESUMO COMENTADO.

Sentir é pensar, é como o indivíduo percebe o mundo. Desta forma, o indivíduo se relaciona com as culturas. Culturas porque somos pluriculturais. Não só o mundo, mas os países, as cidades, os bairros, etc. Por sermos tão diversos é que pensamos de diversas formas e por isso, diferentes. Iguais e diferentes. Assim sendo, as verdades são as mais diversas também. Porém, é preciso acreditar na existência de uma verdade que seja comum a todos nós: o direito e respeito a vida – que abraça em si reflexões a cerca da liberdade de expressão. É nessa verdade única que reside a ética diferente da moral que reside nas verdades de cada um. A ética busca essa verdade universal que dá direitos e deveres justos a todos. Enquanto que a moral busca impor aquilo o que acha que é certo e que é errado. Assim como o indivíduo tem o direito de ser livre, ele também tem o dever em ser livre. Liberdade tem a ver com responsabilidade, solidariedade. A licenciosidade é uma falsa liberdade que extrapola os limites do respeito para consigo e para com os outros. Por sermos pluriculturais é que uma antropofagia cultural é defendida no sentido de nos alimentarmos dessa diversidade e nos potencializarmos ao invés de querermos impor a vigência de uma única cultura tida como a melhor. É nessa relação entre sujeito e objeto (seja este objeto uma caneta, uma obra de arte, e até mesmo a própria natureza) que se dá o conceito de estética. É a maneira sensível pela qual o observador lança um olhar também sensível sobre o objeto percebido. A partir da definição de aura - projeção de significados que os indivíduos lançam sobre um objeto -, Boal acredita que a mesma pode ser uma arma tanto de dominação quanto de libertação. Antes de chegar à aura dos objetos artísticos ou obras de arte, ele inicia seu pensamento acerca dos objetos religiosos e seu valor político. Os significados que estes objetos recebem por parte de quem os detêm (sacerdotes, bispos, etc.) são usados para dominar os fiéis de forma a não lhes darem acesso, conhecimento a esses mesmos significados. É essa falta de conhecimento que gera a passividade. A falta do saber, do educar-se tira o direito do indivíduo de ser sujeito de si e de sua história, restando apenas que este caminhe limitado a indicações dos que detêm da informação. Assim também acontece com as obras artísticas. Além de privar a população dos significados e desta produzir seus próprios significados, os dominantes atribuem os significados que lhes convém. Se tanto o conceito de Estética e o de aura se dá na relação entre sujeito – objeto, o veto desse direito de poder perceber os objetos (e objeto refiro-me a todo e qualquer fenômeno passível de pesquisa, de percepção, de compreensão) anestesia o indivíduo e o adestra a ser um mero reprodutor de sensações. Desta maneira, cada dominante dita suas verdades absolutas e únicas. Antes mesmo do nascimento, o feto já é informado socialmente e culturalmente através das suas primeiras sensações. Desde o ventre, o bebê já percebe através dos seus sentidos. Por isso mesmo, é que estes são tão importantes ao falar-se de opressão ou libertação. As sensações são atreladas a emoções que, por sua vez, se registram em nossa memória sempre de forma intensa – seja prazerosa ou dolorosa. Conforme um estímulo novo, acessamos em nossa memória aquela sensação/emoção já registrada e, assim, partimos de parâmetros e paradigmas. Vale ressaltar que esta afirmação não exclui o fato de o indivíduo poder manifestar-se contra aquela ou outra memória acessada através da dúvida e/ou da sua reedição. O pensamento sensível é anterior ao simbólico. Acredito que o segundo necessite do primeiro. É nesse primeiro pensamento que a criança percebe que faz parte de um mundo e de que pode interagir com ele e transformá-lo. Ao passo que nos tornamos adultos, a palavra (escrita e oral) e a língua se tornam também importantes até pelo fato de no pensamento ainda só sensível, as crianças terem contatos com o idioma por parte do universo adulto da qual elas fazem parte. O pensamento simbólico nasce do pensamento sensível pela relação do sujeito com a palavra (objeto). A palavra já existe no sensível pensado desde bebê. A diferença está justamente na relação. Se neste primeiro (sensível) a palavra existe pelas sensações/emoções/memórias que causam no sujeito, ela existirá no simbólico pelo seu conceito. Aqui, o autor fala dessa relação a partir dos significantes e significados de uma mesma palavra. No sensível, ambos estão juntos porque o significante e o significado referem-se à mesma coisa e, por isso concreto. Já no simbólico, eles estão separados porque nem sempre a mesma palavra (significante) refere-se ao mesmo significado, por isso abstrata. Exemplo: MANGA. Se a manga faz o cachorro salivar é porque ele entende que a palavra manga refere-se a um único significado porque o seu significante vem atrelado ao prazer que é esse único significado (sensação+emoção+memória). Esse seria o pensamento sensível. Agora, quando a mesma palavra MANGA pode tanto significar fruta quanto parte de uma camisa, ela já fará parte do simbólico, pois é o símbolo da fruta ou da camisa a que me refiro e o cachorro não saberá distinguir somente pelo conceito de um ou de outro. O simbólico surge da necessidade de se querer falar e não, só sentir. E o sensível faz com que o que é dito seja sentido por quem diz e por quem escuta. Assim, ambos coexistem. Desta forma, os significados atribuídos sejam a uma obra como a uma palavra, podem ser utilizados enquanto armas tanto de opressão quanto de libertação. Aquele que detém destes significados oprimi e/ou liberta-se. Para Boal a palavra nasce do grito animalesco e se torna lei e dogma através do seu significado. Consequentemente, estamos falando de opressão. Se uma palavra ou a estruturação de mais de uma palavra (uma frase ou um pensamento, por exemplo) tem o significado, o sentido ou a imagem que algum indivíduo lhes atribua, este alguém tem o poder sobre o discurso. Se uma pessoa tem de aprender a dirigir porque isto significa que todo mundo tem de dirigir porque assim tem de ser ou porque é preciso para encurtar a distância entre dois pontos, ela será dogmaticamente oprimida a ter de aprender a dirigir. Isso, se esta pessoa desconhece, por exemplo, que a mesma frase “Você tem de aprender a dirigir” signifique que assim pensa uma parte da sociedade dominante capitalista que incentiva o consumo inconsciente. “Você tem dirigir” também pode significar a reprodução de um discurso antigo e dogmático por aqueles que desconhecem outras opções de transporte como a bicicleta, por exemplo. A palavra, o pensamento vira uma lei que pode dominar a partir do sentido que lhe é empregado e por perpetuar por gerações através do seu caráter indiscutível torna-se um dogma opressor. Tem de ser assim porque tem de ser assim. Ambos pensamentos sensível e simbólico juntos nos dão uma maior percepção da realidade. Como cada um será vivido pelo indivíduo vai depender da cultura, pois os mesmos também são reflexos dela. A razão está também na sensibilidade, pois sentir é pensar com os sentidos. Por esta razão que toda arte é política e nos faz pensar. Apesar da importância da apreciação de ambos pensamentos, o simbólico tende a ser mais aviltado pelo indivíduo. Desta forma, nossa sensibilidade vai sendo encurtada a cada geração. O artista não foge a esta regra a menos que ele se dê conta e resolva fazer algo.

Capítulo 2 – Do pensamento estético à concreção artística.

A subjetividade da arte.

“Ficaríamos paralisados se tivéssemos que ver e ter consciência de tudo que olhamos; escutar e ter consciência de tudo que ouvimos; tocar e ter consciência de tudo que sentimos, cheiramos e gustamos, tal o acúmulo catastrófico e torrencial das informações recebidas. A Natureza é vertiginosa, não somos capazes de viver essa vertigem.” (BOAL, p. 97).

“Tudo é trânsito neste mundo – cada um de nós e cada império, Romano ou dos Mil Anos; cada nação e o mapa-múndi – tudo muda: eu mesmo, quando me nomeiam Augusto Boal. Qual? Sou quem fui antes de escrever esta última linha ou aquele que ainda não escreveu a próxima? Sou um rio de Crátilo:5 em mim, correm águas que não corriam. Outras correram e jamais voltarão rio acima – escondem-se no mar.” (BOAL, p. 100).

Palavras são meios de transporte.

“Palavras são perigosas – cuidado! Designam conjuntos, mas ignoram unicidades. Negros e brancos, homens e mulheres, proletariado e campesinato são conjuntos criados pelo pensamento e pela imaginação, inspirados em realidades sensíveis, mas que não existem como concreção física. São, mas não existem. O que existe corporeamente é este negro e aquela branca, esta mulher e aquele homem, esta camponesa e aquele operário.” (BOAL, p. 101).

“Conjunto é sempre algo mais que a soma de suas unidades – é sinergia! Assemelha-se à segunda estrutura de cordas da cítara, cordas musicais que vibram embora não sejam tocadas pelo músico – apenas pelas ondas sonoras que as primeiras cordas produzem (...). Podemos falar em proletariado, família, pátria etc. para designarmos propriedades específicas desses conjuntos – cientes, porém, da sua transitoriedade. Não podemos eternizar o conceito de palavras que eternizam conjuntos que não são eternos. O proletariado do qual falava Marx no século XIX não é o mesmo proletariado estadunidense do século XXI. Semelhanças existem... e imensas diferenças.” (BOAL, p. 102).

“Para que sejamos capazes de apreender o uno e não apenas os conjuntos aos quais pertence, alguma outra mediação se torna necessária para evitarmos as imprecisões de darmos o mesmo nome, boi, a cada membro da boiada, pois esse gado é feito de unicidades bovinas e não de massa açougueira. Cada vaca tem sua personalidade: Mimosa, Estrela, Esmeralda... – são vacas. Boiada é sinergia.” (BOAL, p. 105).

O artista e sua arte, artista-indivíduo e cidadãos-artistas.

“Ao não se deter, porém, na comum percepção que constrói conjuntos analógicos ou complementares – nem diante das imagens pré-fabricadas, dos sons estereotipados e palavras vazias que expressam o Pensamento Único dominante –, o artista avança, sente, toca, vê e ouve a potência, não só o ato; ultrapassa as aparências do real e revela percepções e aspectos únicos da realidade encouraçada, ou formas únicas de percebê-la: revela aquilo que as palavras confundem, as imagens escondem e os sons ensurdecem.” (BOAL, p. 106).

Divagações sobre as curiosas semelhanças entre amor e arte.

“Amar é uma forma de arte, e o amante sempre algo de artista tem; arte é amor no sentido em que, sem essa atração que sente o sujeito pelo objeto que também é sujeito, ela, a arte, não existiria. Este livro é minha arte: sem o amor que por ele sinto, ele não existiria ou, pelo menos, não na forma que aqui o tenho fabricado.” (BOAL, p. 110).

“No amor e na arte, a única constante é a inconstância. Ao contrário do que se diz, o amor não é um encontro: é uma perseguição! Aquele ou aquela que está sempre mudando persegue aquela ou aquele que nunca é igual a si mesmo (...). O amor não oferece nenhuma garantia de estabilidade, como sabemos e temos provado. Perdoem-me o lugar-comum, mas, da mesma forma que devemos cultivar a arte com amor, o cultivo do amor é uma arte.” (BOAL, p. 111).

Arte como forma de conhecimento.

“Eu se transforma em nós – extraordinário salto. Nós e os artistas, eu e nós – plateia. Juntos, descobrimos a descoberta que fez o artista. Arte é, a um só tempo, individual e social: ao dizermos nós, descobrimos nosso abrangente eu. Digo eu, e somos nós. Podemos estar todos juntos diante de atores, bailarinos ou telas de cinema, ou podemos, solitários, observar um quadro ou escultura – a pluralização se opera, ainda que invisível.” (BOAL, p. 112).

A famosa Teoria dos Neurônios Estéticos.

“As sinapses se multiplicam e se diversificam na medida em que são estimuladas. Quanto mais conhecemos, mais cresce nossa capacidade de conhecer. Quanto mais me ponho a pintar, mais invento como usar pincéis e tinta, como se fosse pintor. Quanto mais me ponho a cantar, mais conheço a extensão da minha voz como cantor. Quanto mais fizer bailar minhas palavras, mais aprendo a amá-las, como se fosse poeta.” (BOAL, p. 116).

“Pedindo antecipadas desculpas aos neurocientistas, quero batizá-los de neurônios estéticos porque é essa a função da Estética: através dos sentidos emocionados, luzir razões, promover transformações.” (BOAL, p. 117).

“Todos esses circuitos modificados retornarão às camadas subcorticais, de onde, por sua vez, irão influenciar a recepção de novas mensagens com as quais guardem alguma relação: os primeiros sons influenciarão a recepção dos novos sons; as primeiras imagens, a de novas imagens; as velhas palavras serão confrontadas com novas palavras; velhos conceitos com conceitos novos; primeiros valores com valores recém-chegados. Todos esses primeiros arcaicos não são imutáveis e podem ser modificados, substituídos ou erradicados, porque não são definitivos – nada no ser humano é definitivo, a começar pela vida! Quanto mais arcaicos, porém, mais resistentes serão a qualquer transformação.” (BOAL, p. 117).

Metáfora – translação e transubstanciação.

“A metáfora, no sentido etimológico de translação e transubstanciação, transpõe algo que existe no contexto cotidiano para um contexto diferente – como palavra deslocada do seu texto para outro. Ou constrói, em outra substância, imagens da realidade original, como um quadro ou uma estátua.” (BOAL, p. 119).

“Faz parte da nossa estética criar condições para que os oprimidos possam desenvolver sua capacidade de simbolizar, fazer parábolas e alegorias que lhes permitam ver, a distância, a realidade que devem modificar.” (BOAL, p. 122).

Exemplo grego – só exemplo.

“Protágoras foi um desses criativos sofistas. Contava-se dele uma história que fazia seus interlocutores pensarem de verdade, a fundo, sem repetir frases feitas e conceitos estabelecidos pelos aristocratas, que não permitiam o pensamento livre, isto é, não permitiam pensar: ‘O jovem Euathlus queria ser seu aluno e foi procurá-lo. Protágoras, era grande orador, portanto, advogado. Como não tinha dinheiro, o aluno propôs pagar suas aulas no fim do curso, com o salário que receberia pela sua primeira vitória em seu primeiro julgamento. Protágoras aceitou. No meio do ano, o aluno desistiu e foi-se embora. Protágoras reclamou em juízo o pagamento dos serviços que já lhe havia prestado como professor, e o aluno foi trazido aos tribunais para se defender. O aluno recusou-se a pagar alegando que não havia terminado o curso nem ganho qualquer causa e que, portanto, a obrigação de pagamento não existia. O juiz lhe deu ganho de causa. Protágoras retornou ao combate e afirmou que, tendo ele, Protágoras, perdido a causa, quem a ganhara havia sido seu exaluno, que, em tão pouco tempo, tanto aprendera. Portando, como ganhador de sua primeira causa, o aluno deveria pagar. O juiz pensou, pesou... olhou os dois lados da questão... paga ou não paga? Examinou bem... e... o que pensaria você, leitor? Diga lá – eu não vou ajudar em nada: pense com sua cabeça, como aconselhava Protágoras!’” (BOAL, p. 124-125).

Monarquias políticas e artísticas.

“Todas as coisas precisam ser nomeadas para que seja reconhecida a sua existência, mesmo invisível. Quem não tem nome, não existe; quem deixa de ser o que era, precisa de rebatismo.” (BOAL, p. 130).

“Muitos sistemas de intenções democráticas, nesta pré-história da humanidade que estamos vivendo, cedo se transformam em monarquias autoritárias, até mesmo em seus opostos, como aconteceu com o Cristo, que não escapou dessa triste alomorfia: sua doutrina de igualdade, fraternidade e carinhosa solidariedade logo foi queimada nas fumegantes fogueiras da Inquisição, junto com Brunos e Joanas, bruxos e feiticeiras... Sua democrática multiplicação de pães e peixes transformou-se em dízimos a serem pagos pontualmente – comércio cuja mercadoria é a ilusão, a esperança e a fé.” (BOAL, p. 135).

“Nos meios de comunicação – fantástica arma de poder e convencimento! –, imperam absolutas as monarquias da palavra, do som e da imagem, transformadas em latifúndios da informação. Imagem, palavra e som não circulam livres na sociedade – são canalizados pelas estações de rádio e TV, pelos livros, revistas e jornais, escolas e universidades, e pela propaganda na beira da estrada. Tudo isso tem dono! Vivemos no mundo virtual desses três impérios. Palavra, som e imagem são livres enquanto possível criação acessível a todos os seres humanos, mas os meios de comunicação que os fazem circular são privativos do poder econômico que os fabrica, padroniza, difunde, controla e usa.” (BOAL, p. 136).

“Convém não esquecer que ser humano é ser artista e ser artista é ser humano. Arte é vocação humana, é o que de mais humano existe no ser. Para alguns de nós, tornou-se profissão, mas continua sendo uma democrática vocação. Nenhum de nós tem que ser melhor que ninguém; cada um de nós pode sempre ser melhor que si mesmo.” (BOAL, p. 138).

A linguagem estética do poder.

“Os animais privatizam o espaço e o espaço privatizado é excludente: esta é a minha casa, o meu quintal, o meu latifúndio; não é a tua casa, o vosso quintal ou a nossa terra. Não nosso ou vosso: é meu! Inicia-se a luta, feroz ou ardilosa, pelo espaço, que se tornou extensão do corpo do dono, seja leão, tigre ou, no campo, grileiros.” (BOAL, p. 139).

“No mesmo mês de janeiro, a ONU revelou que existem 950 milhões de famintos na terra... mas as nações ricas não moveram meia palha, nem gastaram um só centavo para salvá-los da tortura da fome. Dez por cento do que gastaram com bancos e banqueiros teriam bastado para alimentar esses milhões de famintos durante dez anos. A crise que os preocupa é sempre a crise dos ricos, não a dos pobres; crise do sistema financeiro, não da barriga vazia. Será que a mesma Estética será válida para os dois lados?” (BOAL, p. 140,141).

Sociedades espetaculares e sociedades do espetáculo.

“As sociedades são espetaculares no sentido estético da palavra, isto é, como organização sensorial de um ato, uma relação humana, um evento. O comer solitário em um botequim da esquina já contém elementos culturais do espetáculo que é um jantar em família; um só indivíduo ao telefone prenuncia, em gestos e voz, uma teatral reunião de negócios. As sociedades jamais deixam de ser espetaculares porque todo espetáculo é uma confrontação de poderes, e todas as relações humanas são confrontações de poder.” (BOAL, p. 141).

“Os espetáculos da sociedade do espetáculo são revelados e reconhecidos como tais dado o seu caráter de exibição e a clara divisão entre espectadores e espetáculos, uns lá, outros cá, enquanto os espetáculos do cotidiano das Sociedades Espetaculares são, ou se tornam, inconscientes. Podem e devem ser revelados pela arte – todas as artes!” (BOAL, p. 142).

 “O espetáculo expõe aos nossos sentidos não apenas o seu titular principal, mas toda a hierarquia, desde o mais poderoso senhor até o último coadjuvante. Todos desempenham papéis, ora distantes do epicentro, ora como papagaios-de-pirata, no ombro de alguém importante, espinha reta ou curvada. Quanto mais próximo do protagonista, maior seu poder. Tocá-lo: sonho supremo.” (BOAL, p. 144).

“Terminada a festa – sociedade do espetáculo –, mesmo assim os rituais do cotidiano – sociedade espetacular – continuam: o imperador caminha para sua cama como se fosse Imperador; os serviçais, como obedientes serviçais, caminham para os seus porões; o tom de voz de um e outros mantém características de opressor-oprimidos, mantém as estruturas do poder. A festa é um espetáculo da sociedade... O pós-festa é espetacular, embora inconsciente.” (BOAL, p. 145).

“Nenhuma sociedade sobreviveria sem ser espetacular, e sem espetáculos – ambos têm função civilizatória. Sua vetustez, porém, engessa a criatividade e proíbe a invenção.” (BOAL, p. 147).

A invasão dos cérebros

“Invasão dos Cérebros: a mesma tática que se usa para invadir um país – primeiro bombardeios, antes que entre em ação a infantaria de ocupação: primeiro TV e cine... depois o mercado vem atrás.” (BOAL, p. 149).

“Mesmo sendo um sistema coercitivo que tinha por meta política acomodar suas plateias ao conformismo social, não estimular seu inconformismo, seu desejo de transformar o mundo – ao contrário do Teatro do Oprimido! –, a tragédia estimulava o pensamento e podia, como em Eurípides, questionar a sociedade e seus valores. Era o balé das ideias, não o das balas perdidas!” (BOAL, p. 150).

“Com este lixo ético despejado em seus perplexos neurônios, os vulneráveis espectadores vão, mais tarde, receber as novas informações. Não podemos nos espantar diante de crimes de Columbine e Virgínia Tech, que foram prenunciados e promovidos por esse tipo de cinema, nem podemos esquecer que as torres gêmeas de Nova York foram destruídas em um filme de ficção antes de serem filmadas em chamas na tragédia verdadeira.” (BOAL, p. 152).

“Essa apropriação indébita de significados e significantes, proposital esvaziamento da palavra – que, podendo significar qualquer coisa, não significa nada – tem por objetivo desorganizar a linguagem e impedir a formulação de pensamentos coerentes.” (BOAL, p. 153).

“Já não se sabe o que se diz quando se fala! Já não se sabe o que se escuta quando se ouve. A língua, falada e escrita, torna-se obstáculo à comunicação, o oposto daquilo para o que foi criada.” (BOAL, p. 153).

Coroas refratárias e agressivas, mas não indestrutíveis.

“O fanatismo esportivo e religioso, a adoração idolátrica de pessoa ou instituição, o sectarismo político ou quaisquer outros sectarismos – mesmo quando existam razões sociais e econômicas para essa rendição à miopia – são exemplos concretos dessas coroas formadas pela repetição insistente das mesmas informações com o mesmo conteúdo, e pela aceitação de valores não questionados.” (BOAL, p. 156).

“A Estética do Oprimido, democrática e subjuntiva, visa, através da arte, permitir ao cidadão questionar dogmas e certezas, hábitos e costumes que suportamos em nossas vidas. Visa analisar cada ação e cada fato que acontece dentro de circunstâncias concretas. Visa destruir coroas de circuitos neuronais refratárias e agressivas... mas não indestrutíveis.” (BOAL, p. 158).

A objetividade da arte.

“É neste nível ético que se devem mover o Teatro e a Estética do Oprimido: não bastam boas ideias, é necessário que sejam justificadas; não basta trabalhar com ideias que já existem, é necessário inventar, porque todas as situações, mesmo repetidas, são sempre novas.” (BOAL, p. 160).

Do processo estético ao produto artístico.

“Quando, porém, àqueles que não pertencem à monarquia artística, quando às pessoas comuns se oferece a possibilidade de realizar um processo estético do qual foram alienadas, este processo expande suas possibilidades expressivas atrofiadas, aprofunda sua percepção do mundo, dinamiza seu desejo de transformá-lo.” (BOAL, p. 162).

“Ao fabricar sua obra, o novo artista, mesmo que não chegue a produzir obras para museus, sente o prazer de ser reconhecido como insubstituível naquilo que faz e que só ele ou ela sabem fazer do jeito que fazem.” (BOAL, p. 162).

O trânsito social do singular ao plural.

“Não se trata apenas de tornar agradável o espetáculo, torná-lo estético, mas de descobrir a verdade escondida atrás dos nossos hábitos mecanizados de pensamento e comportamento repetitivo do dia-a-dia.” (BOAL, p. 164).
O método subjuntivo.

“O teatro conjuga a realidade no tempo presente do modo indicativo – ‘Eu faço!’ – ou no gerúndio – ‘Estou fazendo’. A TV e a publicidade, no modo imperativo – ‘Faça!’ No Teatro do Oprimido, a realidade é conjugada no modo subjuntivo, em dois tempos: no pretérito imperfeito – ‘...e se eu fizesse?’ – ou no futuro – ‘...e se eu fizer?’” (BOAL, p. 165).

“Mesmo que os participantes dos nossos projetos em escolas, saúde mental, camponeses, pontos de cultura façam qualquer coisa admirável, ainda assim devemos pedir alternativas: e se fosse diferente, como seria? No final de cada sessão, sim, devemos decidir o que fazer, como fazê-lo e quando.” (BOAL, p. 165).

Revolução cultural não dogmática.

“A Estética do Oprimido é uma forma essencial de combater a Invasão dos Cérebros porque coloca o oprimido como protagonista do processo estético, não simples fruidor de arte.” (BOAL. p. 166).

“Não leva a cultura ao povo, mas oferece meios estéticos necessários para o desenvolvimento da sua própria cultura, com seus próprios meios e metas. Não apenas educa nos elementos essenciais do como se pode fazer, mas, pedagogicamente, estimula os participantes a buscarem seus caminhos.” (BOAL, p. 166).

“Uma Estética democrática, ao tornar seus participantes capazes de produzir suas obras, vai ajudá-los a expelir os produtos pseudoculturais que são obrigados a tragar no dia-a-dia dos meios de comunicação, propriedade dos opressores. Democracia estética contra a monarquia da arte.” (BOAL, p. 167).

“Até mesmo os Jogos Sinestésicos já estão no nosso Arsenal e são os que mais estimulam a criatividade artística porque, ao traduzirem uma sensação em outra, uma ideia em sensação ou uma sensação em ideia, ao traduzirem a memória em emoção e esta naquela, estimulam a totalidade dos neurônios estéticos envolvidos no tema.” (BOAL, p. 169).

“Nenhuma estrutura de dança, música ou teatro, no entanto, é inocente ou vazia: todas contêm a visão do mundo de quem a produz. Contêm sua ideologia, que, através da forma artística, é incorporada por quem as pratica... a menos que disso esteja consciente.” (BOAL, p. 169).


RESUMO COMENTADO.

O amor e a arte são de natureza estética, pois não precisam de explicações. É preciso sentir antes de qualquer coisa. Num mundo tão cheio de informações, imagens, palavras e sons, não somos capazes de perceber tudo a nossa volta. Não somos oniscientes. Então, simbolicamente criamos conceitos que agrupam as coisas ou por analogia ou por complementaridade. E assim, são formados os conjuntos. Os indivíduos ou objetos de um conjunto podem ou não ser semelhantes e se sendo, não quer dizer que são idênticos. Existem as diferenças, a diversidade, a pluralidade. Por isso, por mais importante que este agrupamento didático seja interessante e funcional não podemos generalizar pejorativamente e esquecer que vida é movimento e que as coisas mudam, as pessoas mudam. Inclusive, os conceitos quiçá os preconceitos. Será também através das palavras que nos comunicaremos e apesar de em algumas vezes serem as mesmas palavras, nem sempre serão os mesmos significados que dependem desses indivíduos mutantes e seus conjuntos culturais. A arte também é uma forma de comunicação que não necessariamente verbal onde o artista se comunica com sua plateia. Universos pessoais contam histórias culturais e comuns a todos no que diz respeito ao que temos de interseção: a vida em suas dores, prazeres, inquietações e mudanças. E o conjunto passa a ser coletivo. Agrupados porque juntos somos mais fortes no que se tange o bem maior. Por isso, é preciso muito cuidado com a arte que contemplamos, pois ela pode muito bem nos oprimir impondo-nos suas verdades ou nos desequilibrar com suas dúvidas e nos fazer cair em meio a um precipício de questionamentos. Há quem prefira andar sobre o chão firme das verdades absolutas. Eu já prefiro me atirar em queda livre. Ao infinito que escapa das formas, dos limites, fronteiras e conceitos. Nesse livro e em toda sua pesquisa artística, Boal propõe uma reflexão acerca da transformação e a sua concreção. As metáforas são uma ótima forma de mudança, onde aquele que a produz está criando um novo olhar sobre a realidade. A quebra das tradições, dos dogmas também é uma forma de transformação. Os rituais enquanto espetáculos que acontecem nas sociedades devido a seu caráter de repetição precisam de mudanças a fim de que o novo ganhe lugar e, assim, evoluamos. Só permanece no mesmo lugar quem está feliz ali ou já não acredita mais na mudança, perdeu a fé e a esperança. A classe dominante – sejam aristocratas, burgueses, intelectuais, políticos, empresas, etc. – teme a transformação justamente porque lhes é cômodo o lugar do poder, de poder. Os rituais assim como os dogmas impõem suas regras, onde alguns serão vetados de agirem livremente e outros obrigados a agirem. O autor aqui não questiona esses ritos, pois ele acredita que os mesmos são civilizatórios no sentido de expressar e conceituar determinadas civilizações. Eles nomeiam as culturas. O que se é questionado aqui é a não transformação dos mesmos. A tradição mantida como eterna custe o que custar. Por que não posso questionar a nossa cultura? As culturas? Por que não posso romper com paradigmas, verdades absolutas, inclusive as minhas próprias? Para mudar é preciso pensar. Por que mudamos? Por quem mudamos? Para quem? O que mudo? O que me muda? E à medida que mudamos, conhecemos e nos desenvolvemos para além de nós mesmos. Transcendemos. E assim, aprendemos. Mas aqueles que detêm o poder da informação, através da palavra, da imagem e do som, estarão dispostos a informar as suas verdades, os seus significados e sentidos acerca da vida. Desta forma, reproduziremos seus pensamentos. Aqui, o autor fala da importância da Televisão e do cinema no momento de impor o pensamento único e inquestionável apoiados na cultura absoluta do consumismo. Regras de comportamento assim como desejos, vontades, sonhos são depositados nos telespectadores diariamente de forma que deixam de serem indivíduos pensantes para compor uma massa heterogênea não no sentido coletivo/solidário, mas enquanto grupos reprodutores consumistas. A cultura que lhes deveria ser pelo viés da produção e por meios estéticos pessoais, passa a ser apenas um produto de fruição. A relação existente entre sociedade e cidadão não se dá de forma que este último possa, deva e/ou tenha o direito de intervir. O que era para ser uma relação em via de mão dupla apenas acontece em uma única mão: sociedade > indivíduo. As coisas devem ser aceitas sem questionamentos enquanto fatalidades imutáveis.

domingo, 22 de junho de 2014

1. Fichamento do livro "Criatividade e Processos de Criação", de Fayga Ostrower.

Capítulo I.

"Criar é, basicamente, formar. É poder dar uma forma a algo novo. Em qualquer que seja o campo de atividade, trata-se, nesse 'novo', de novas coerências que se estabelecem para a mente humana, fenômenos relacionados de modo novo e compreendidos em termos novos. O ato criador abrange, portanto, a capacidade de compreender; e esta, por sua vez, a de relacionar, ordenar, configurar, significar."(pg. 09)

"Assim, ao abordarmos em seguida alguns aspectos do ser consciente/sensível/cultural, queremos deixar bem claro que o nosso enfoque continua sendo a cultura. Importa-nos mostrar como a cultura serve de referência a tudo o que o indivíduo é, faz, comunica, à elaboração de novas atitudes e novos comportamentos e, naturalmente, a toda possível criação." (pg. 12) 

"Ao se tornar consciente de sua existência individual, o homem não deixa de conscientizar-se também de sua existência social, ainda que esse processo não seja vivido de forma intelectual (...) Representando a individualidade subjetiva de cada um, a consciência representa a sua cultura." (pg. 16)

"(...) Nessa integração que se dá de potencialidades individuais com possibilidades culturais, a criatividade não seria senão a própria sensibilidade. O criativo do homem se daria ao nível do sensível." (pg. 17)

"(...) Em nossa experiência vivencial estruturam-se configurações de vida interior, formas psíquicas, que surgem em determinados momentos e sob determinadas condições, e são lembradas, 'percebidas' em configurações. De modo similar ao da percepção, pelos processos ordenadores da memória, articulam-se limites entre o que lembramos, pensamos, imaginamos, e a infinidade de incidentes que se passaram em nossa vida. De fato, se não houvesse essa possibilidade de ordenação, se viessem anarquicamente à tona todos os dados da memória, seria impossível pensarmos ou estabelecermos qualquer tipo de relacionamento. Seria impossível funcionarmos mentalmente." (pg. 19)

"Na percepção de si mesmo o homem pode distanciar-se dentro de si e imaginativamente colocar-se no lugar de outra pessoa. Em virtude do distanciamento interior, a expressão de sensações pode transformar-se na comunicação de conteúdos subjetivos. O homem pode falar com emoção, mas ele pode falar também sobre as suas emoções. estende a comunicabilidade a conteúdos intelectuais. Ele pensa e pode falar sobre os seus pensamentos. Refletindo a respeito dos dados perceptivos do mundo, o homem pode formular ideias e hipóteses de crescente complexidade intelectual e comunica-las aos outros como propostas de futuras atividades." (pg. 22)

"Temos de levar em conta que uma realidade configurada exclui outras realidades, pelo menos em tempo e nível idênticos. É nesse sentido, mas só e unicamente nesse, que, no formar, todo construir é um destruir. Tudo o que num dado momento se ordena, afasta por aquele momento o resto do acontecer. É um aspecto inevitável que acompanha o criar e, apesar de seu caráter delimitador, não deveríamos ter dificuldades em apreciar suas qualificações dinâmicas. Já nos prenuncia o problema da liberdade e dos limites." (pg. 26)

"Não acreditamos que seja o conflito emocional o portador da criatividade. O que o conflito faria, dada sua área e sua configuração particular em cada caso, ao intervir na produtividade de um artista, seria eventualmente propor a temática significativa por ser ela tão imediata e relevante para a pessoa (...) Mas o conflito pessoal não poderá em si ser confundido nem com o potencial criador existente na pessoa, nem com a capacidade de elaborar criativamente um conteúdo. Ao contrário. O quanto existe de elaboração visível na obra artística, nos indica exatamente a medida de controle que o artista ainda pôde exercer sobre o seu conflito." (pg. 29)

RESUMO COMENTADO.

O indivíduo vive uma eterna simbiose entre si e o meio cultural em que vive. A cultura é fundamental para o processo de criação que se dá através da sensibilidade. Faz parte da condição humana, evoluir, crescer, desenvolver-se, criar. Pensando e sentindo, sentindo e pensando, inicio uma tensão psíquica, um conflito interno entre referências pessoais, que me são únicas, e este primeiro capítulo lido. Começo a criar intencionalmente um texto que não resuma mas que expresse a minha percepção deste capítulo. Esta intencionalidade vai sendo consciente à medida em que escrevo essas linhas. Muitas linhas, páginas, frases e palavras foram lidas. É preciso que eu ordene meus pensamentos a fim de estabelecer aqui um diálogo. Não tenho como não associar algumas passagens do livro com experiências já vividas. A memória segundo o psicólogo Augusto Cury, não pode ser apagada mas sim, editada. É na memória que se encontram passado, presente e futuro. Esse trio temporal reside em nossas mentes, seja consciente ou inconscientemente. Enquanto a criação nos é uma dádiva do inconsciente, o ato criador divinamente nos é consciente à medida em que expressado. E é nesse campo da percepção (consciente) que  se dá o ato criativo no processo da criação. Penso, logo crio. Sinto, logo crio. Crio, logo vivo. Vida é movimento e é nesse movimento que minha consciência se desenvolve, percebendo e trocando com o exterior. Seja através de palavras ou outras formas simbólicas. A cultura, as relações, as convenções são fundamentais para esse desenvolvimento também sensível. É no potencializar da sensibilidade consciente que me percebo e percebo o outro. E são diversas as formas de se comunicar, de se expressar, de criar. De dar forma a uma realidade que está em construção. Sendo destruída para ser construída. É por vivermos em uma sociedade cultural que somos indivíduos com bagagens, alegrias, tristezas, vitórias e derrotas particulares a cada um de nós. São essas singularidades que promovem a pluralidade cultural. E é essa ordenação interior que nos impulsiona a criar. É interessante e importante notar que o ato de criar não nos esvazia. Vejo como um processo de retro/alimentação. Não penso como um processo de industrialização, onde as máquinas se enchem de matérias e cospem produção em massa. É como os pranayamas, exercícios respiratórios onde mesmo na expiração, o esvaziamento de ar dos pulmões não chega a ser um esvaziamento no sentido de não existir mais nada, mas um esvaziamento de devolução do que fora inspirado anteriormente. Uma troca com a natureza. Onde o externo e o interno nos perpassam como o vento que não vemos mas sentimos. Fico aqui pensando na metafísica e seu potencial criador. De como o pensamento tem força. De como uma casa surge no campo das ideias para depois passar para o papel e, em seguida, ser levantada enquanto estrutura física. Os decretos da chama violeta se utilizam da imaginação para mentalizar cores e palavras a fim de transmutar energias negativas em positivas. Criamos mentalmente, círculos cromáticos a fim de curar, limpar tanto ambientes como nós mesmos. Em minhas experiências como ator, nos processos de criação, lembro de Stanislavski e seu pensamento a cerca do uso de sentimentos análogos para a construção de personagens. Mais uma vez, a ordenação interior, o conflito pessoal e individual potencializando o ato de criar. O conflito aqui não é a mola propulsora mas o controle deste conflito alimenta o processo criativo. Não incorporo um personagem. Faço ele nascer de dentro, mesmo que com técnicas externas como as ações físicas. O externo me parece como algo a mobilizar o meu interno a fim de que ele se expanda, crie forma. 

Capítulo II.

"O homem elabora seu potencial criador através do trabalho. É uma experiência vital. Nela o homem encontra sua humanidade ao realizar tarefas essenciais à vida humana e essencialmente humanas. A criação se desdobra no trabalho porquanto este traz em si a necessidade que gera as possíveis soluções criativas. Nem na arte existiria criatividade se não pudéssemos encarar o fazer artístico como trabalho, como um fazer intencional produtivo e necessário que amplia em nós a capacidade de viver." (pg. 31)

"(...) Pelo contrário, o pensar só poderia tornar-se imaginativo através da concretização de uma matéria, sem o que não passaria de um divagar descompromissado, sem rumo e sem finalidade. Nunca chegaria a ser um imaginar criativo. Desvinculado de alguma matéria a ser transformada, a única referência do imaginar se centraria no próprio indivíduo, ou seja, em certos estados subjetivos desse indivíduo cujos conteúdos pessoais não são suscetíveis de participação por outras pessoas. Seria um pensar voltado unicamente para si, suposições alienadas da realidade externa, não contendo propostas de transformação interior, da experiência, nem mesmo para o indivíduo em questão." (pg. 32/33)

"Daí não se conclui que a linguagem em si seja subjetiva. Ela é objetivada como ordenação essencial de uma materialidade. Essa objetivação da linguagem pela matéria constitui um referencial básico para a comunicação." (pg. 37)

"O que, portanto, se coloca aqui é que, para poder ser criativa, a imaginação necessita identificar-se com uma materialidade (...) Mas sempre conta a visão global de um indivíduo, a perspectiva que ele tenha do amplo fenômeno que é o humano, o seu humanismo. São seus valores de vida que dão a medida para seu pensar e fazer." (pg. 40)

"É claro que o contexto cultural em si não geraria a personalidade de Leonardo da Vinci. Pensar assim, seria formar um juízo demasiadamente determinista do desenvolvimento humano. Todavia, o contexto cultural, como substrato do ser individual do homem, fornece determinadas condições que permitem a manifestação e talvez até a realização de certas propostas que em outras épocas seriam inconcebíveis." (pg. 46)

"Daí se nos apresenta outro aspecto que tanto nos fascina no mistério da criação: ao fazer, isto é, ao seguir certos rumos a fim de configurar uma matéria, o próprio homem com isso se configura (...) Seguindo a matéria e sondando-a quanto à 'essência de ser', o homem impregnou-a com a presença de sua vida, com a carga de suas emoções e de seus conhecimentos. Dando forma à argila, ele deu forma à fluidez fugidia de seu próprio existir, captou-o e configurou-o. Estruturando a matéria, também dentro de si ele se estruturou. Criando, ele se recriou." (pg. 51)

RESUMO COMENTADO.

A criatividade não está somente relacionada as artes e isso gera um desentendimento nada saudável. Muitos pensadores excluem a arte do trabalho, considerando este último como um fazer tecnicista e de produção em massa, excluso do pensar e sentir. Trabalhar é produzir, é agir impulsionado pela vida, para a vida e criativamente. A linguagem que construo seja no teatro, na dança, como na engenharia, tem princípios similares, análogos. Os processos criativos podem se dar em diferentes linguagens, em diferentes áreas de atuação e nascem globalmente da relação do indivíduo com sua cultura. Ao invés de mobilizarmos mais processos criativos, adestramo-nos, uns aos outros. O filósofo cria. O padeiro cria. O professor cria. O artista cria. O desempregado cria. Criar está relacionado a vida, ao indivíduo e a sociedade. É importante que haja uma ordenação interior a fim de que a subjetividade seja objetivada no intuito de concretizar, de comunicar. O criar tem a ver com essa comunicabilidade entre os indivíduos, os seres vivos, - levando-se em consideração que os animais 'irracionais' também criam porém, num outro nível de sensibilidade - esse é o seu caráter, pois sem o diálogo, o imaginar passa a ser uma alienação de si mesmo. Por mais que sejamos indivíduos e tenhamos mil pensamentos a cerca do que seja a solidão - por exemplo -, é nos relacionando que encontramos a vida. Por isso o respeito é tão importante. Vários universos distintos em universos maiores, a sociedade. É preciso que haja troca. A materialidade envolve um relacionamento afetivo entre o indivíduo e a matéria, assim como, depende de valores, contextos culturais/históricos e limitações tecnológicas para dar forma, concretizar a criação. Ao criar, ao dar forma, o indivíduo estará expressando esses valores culturais de sua época e sociedade. Por mais que o contexto cultural da época vivida nos leve - seja por meio de repressão - a uma forma padrão de criar, criaremos cada qual do seu jeito por mai sútil que seja. É a digital. A individualidade é característica inerente ao processo criativo. É aqui, durante o ato de criação que matéria e criador também se transformam. Ambos fazem parte da criação. À medida que modifico a matéria, sou modificado. É preciso perceber a matéria. Qual o seu tipo ? Quais as suas limitações ? As especificidades. As particularidades. A materialidade aqui não necessariamente precisa ser algo concreto. Pode ser um pensamento, no caso da filosofia. A matéria em si traz particularidades que delimitam o processo criativo, impulsionando o indivíduo a um imaginar específico a fim de detalhar melhor, dar forma, conteúdo. A especialização em demasia não é o que se procura. É preciso pensar no todo também. Essa especificidade amplia as possibilidades de criação e não reduz.

Capítulo III.

"Assim como o próprio viver, o criar é um processo existencial. Não abrange apenas pensamentos nem apenas emoções. Nossa experiência e nossa capacidade de configurar formas e de discernir símbolos e significados se originam nas regiões mais fundas de nosso mundo interior, do sensório e da afetividade, onde a emoção permeia os pensamentos ao mesmo tempo que o intelecto estrutura as emoções. São níveis contínuos e integrantes em que fluem as divisas entre consciente e inconsciente e onde desde cedo em nossa vida se formulam os modos da própria percepção. São os níveis intuitivos do nosso ser." (pg. 56)

"Na última subcena, numa sequência de comportamentos assinalados como 'corretos', um operário é representado recebendo seu salário com uma das mãos. Para o operário negro na África do Sul, esse gesto tem conotações opostas. É costume receber coisas com as duas mãos, e dar com uma mão. Assim, a moral da história foi obscurecida por um lapso acidental, já que, no cartaz, o receptor do salário era visto, não como recebendo uma recompensa pelo trabalho bem feito, mas, ao contrário, como doador de dinheiro." (pg. 59)

"A partir dos diversos fatores que interagem na percepção e mutuamente se influenciam - a imagem referencial, a constância de imagem com os nivelamentos e as simultâneas diferenciações - não somente cada imagem visual surge de início imbuída de significados, como também surge imbuída de valorações." (pg. 64)

"As conclusões muitas vezes nos surpreendem como um resultado original. O seu sentido novo pode até mesmo ser inesperado e, no entanto, formula uma visão de certo modo pressentida. Confirma essa visão. Sentimos que a ordenação concreta a que chegamos abrange a razão de ser da situação, abrange toda sua lógica íntima, o verdadeiro sentido. É o insight, a visão intuitiva. Sabemos de repente, temos inteira certeza, que desde o início era esse o seu significado." (pg. 67)

"(...) Qualquer conceito é, portanto, uma forma face à sua estrutura (...) o conceito é referido ao nosso sensório e é também interpretado por nós em termos sensoriais (...) Nesse sentido, o conceito é uma forma (...) A forma nunca é um conceito. A forma se caracteriza por sua natureza sensorial." (pg. 69)

"É possível, porém, que o próprio conceito de uma inspiração seja equivocado, e indispensável (...) Podemos entender todo fazer do homem como sendo inspirado se o qualificarmos pelo potencial criador natural, pela inata capacidade de formar e intuir, por sua espontânea compreensão das coisas." (pg. 73)
"Seu caminho, cada um o terá que descobrir por si. Descobrirá, caminhando. Contudo, jamais seu caminhar será aleatório. Cada um parte de dados reais; apenas, o caminho há de lhe ensinar como os poderá colocar e com eles irá lidar." (pg. 76)

RESUMO COMENTADO.

A criatividade se baseia num processo de observação do externo em diálogo com ordenações internas, pessoais.  Neste diálogo, e pelo fato de nossa memória ser 'o orientador' na percepção, apesar de um resultado novo, sentimos que este mesmo resultado era algo esperado por nós, o insight. Durante os processos criativos, o indivíduo passa por emoções como tristezas, alegrias comuns ao ser humano. Cabe à tensão psíquica concentrar o indivíduo em si a fim deste poder sempre retomar o trabalho retomando o estado inicial da criação. Cada cultura traz em si valorações, imagens referenciais - estas são constantes, não se modificam a não ser que o indivíduo aspire essa transformação e revalorização de sua cultura, com a aculturação por exemplo - que povoam as nossas mentes. Isso torna a cultura do nosso planeta uma cultura plural. Aculturar-se é importante no âmbito de ampliação de conhecimentos, consciência e do ser sensível, além de ajudar na comunicação que é o sentido maior da criação. Percebendo essas diferenças, abrimo-nos para o novo. A percepção é o próprio intuir, onde observamos um fenômeno e através destes referenciais pessoais ordenamos, estruturamos as informações selecionadas pelo que mais nos importa. A elaboração seria tal qual uma bússola nos processos criativos que vai guiando o pesquisador/criador a escolher/selecionar através de sua personalidade, caminhos e opções, direcionando sua pesquisa para uma resolução. A maneira como percebemos as situações e os fenômenos variam de indivíduo para indivíduo e, inclusive, variam num mesmo indivíduo levando-se em conta os diferentes momentos em que este mesmo indivíduo se encontra e os torna diferente de si mesmo. Já percebemos estruturando as informações/imagens em ordenações, estruturas possíveis de uma coerência interna a fim de criarmos coerentemente também. O instinto de uma certa forma antecede o fenômeno. O fenômeno quase sempre antecede a intuição a fim de possibilitar a percepção imediata/espontânea. Por isso, intuição e instinto diferem.  Intuir é formar. Conceito é forma, mas o contrário não se dá. Formar é não-verbal, está mais relacionado a signos, configurações de natureza sensorial. É o caminho. Já os componentes em formação podem ser verbais. Formar é fazer, é objetivar, é agir, é concretizar, é transformar-se. A autora cita a 'arte conceitual' como isenta desta responsabilidade de ações com sentido. Esta arte se faz e se desfaz em si mesma, alienando o indivíduo do seu potencial criador e transformador.

Capítulo IV.

"(...) Certas coisas serão condicionadas, o choro, o colo, a atenção da mãe. Percebendo que foi para o colo quando estava molhado e chorou, o bebê começa a sentir que, chorando, pode ir para o colo. Numa próxima vez talvez chore, não porque esteja molhado mas porque queira ir para o colo. Ele aprende que as coisas podem ser solicitadas pelo seu comportamento." (pg. 77)

"(...) Através do enfoque predominantemente sensorial que se dá em ordenações de campo, a percepção de si, das matérias e do próprio fazer, se articula sempre de um modo mais subjetivo e específico, e mais direto. Nas ordenações de grupo em que se compara e se generaliza, a percepção pode ser entendida como sendo mais objetivada (...) essas ordenações permitem ao homem enveredar, pensador e experimentador que é, pelos invisíveis e imprevisíveis caminhos da elaboração intelectual." (pg. 82)

"Nossa vigilância tem diversos níveis, variando de um estado de concentração focalizada a um estado de atenção subliminar. enquanto estivermos concentrados na forma de um determinado campo, permanecemos conscientes de áreas periféricas com uma atenção mais difusa. Qualquer alteração nessas áreas, sobretudo se for abrupta e envolva algum tipo de movimento, imediatamente atrai nosso interesse. Poderão assim as periferias tornar-se a nova situação, centro de nossas atenções." (pg. 88)

"É nisso, essencialmente, que diferem as ordenações de grupo: no modo de se fazerem as ligações. Agrupando através de comparações, relacionamos de grandeza menor para maior. Procuramos, e portanto encontramos, o genérico antes do específico." (pg. 89)

"(...) Em todas as obras de arte, em qualquer das artes, o artista usará concomitantemente as ordenações de grupo e as de campo; em sua linguagem se complementarão ao mesmo tempo aspectos intelectuais e sensuais da experiência. Como ordenações de grupo, havemos de reconhecer um padrão coerente segundo o qual se determina a dinâmica da obra, nas proporções e no ritmo dos vários componentes (componentes e intervalos), ao passo que através de ordenações de campo se configura a especificidade material da obra em termos de sua existência concreta e única. Assim, pela linguagem, a obra de arte afirma em nós a dupla experiência: a do fenômeno do ser e a da ordem do ser." (pg. 90)

"Quando não semelhantes, os componentes devem ser dessemelhantes, isto é, a diferenciação ainda deve permitir um denominador comum, à base do qual se estabeleça o relacionamento." (pg. 92)

"A ideia de partes é válida para objetos, ou para configurações que sejam concebidas como estáveis num espaço-tempo, também concebido como relativamente estável. Em formas artísticas, as partes correspondem a divisões internas produzidas por contrastes. Subdividido em áreas subordinadas e dominantes, áreas de transição e áreas de clímax, o todo pode ser percebido como um conjunto composto e articulado em seu conteúdo expressivo - a função das partes sendo precisamente a de explicitar uma totalidade que contenha uma medida de desenvolvimento interior. Só assim a estrutura pode tornar-se forma simbólica e pode comunicar o conteúdo expressivo." (pg. 94)

"Por isso é impossível voltar atrás e decompor uma forma, desagregá-la ou dissolvê-la. Novamente, forma não se reporta só à arte. Todas as manifestações de nossa vida e todas as experiências são formas, fenômenos estruturados e apreendidos através de processos também estruturados. Impossível, então, deveras irrealizável, é desfazer um acontecimento, eximir-se dele ou supor que não existiu. Por acontecer, o fato configura algo e, ao configurar, modifica algo. Modifica certas realidades - em nós também. A única coisa possível é elaborarmos as formas a partir de sua existência, em busca de novas realidades. Só podemos mesmo criar." (pg. 96/97)

"Poder alcançar um estado de equilíbrio, sensibiliza-nos como uma verdadeira conquista. O equilíbrio não anula as forças diferentes. Para o homem, em qualquer situação de vida trata-se de conviver com essas forças, viver através delas e incorporá-las com vistas a uma maior diferenciação. Com isso o homem amplia a apreensão da realidade. Quando vemos uma forma expressiva, vemos em seu equilíbrio interior que as várias forças diferentes foram de algum modo reunidas e em algum ponto compensadas, adquirindo um novo sentido de unidade. Na forma expressiva, os elementos complexos da experiência humana não se descaracterizam, eles se esclarecem a um nível mais significativo." (pg 99)

RESUMO COMENTADO

Os processos de criação, de percepção se dão através de relacionamentos. Esses são as formas a que a autora se refere neste livro. Formar é se relacionar com o ambiente, o contexto cultural e com outras pessoas. Como já fora dito anteriormente, é se relacionar afetivamente com a matéria. O exemplo do bebê em seus primeiros dias de vida, é fantástico e tocante no que se refere à experimentação, a identificação através da percepção de imagens referencias novas para ele. A ordenação com que se estrutura primeiramente o sensório a partir da experiência imediata para consequentemente racionalizar é o processo de criação da humanidade, ou humanização, que vem acontecendo desde os primórdios. Primeiro, experimentamos para depois refletirmos numa ordenação que a autora chama de ordenação de grupo. Pelo fato de já termos avançado séculos de racionalização, essa ordenação inicial a que a autora se refere como de campo, que se dá através do sensível, vem perdendo sua essência pelo acúmulo de valores impregnados de esteriótipos e rótulos. O indivíduo não mais experimenta, relacionando-se e a partir daí forma, configura. As formas já estão cristalizadas - percebemos também uma educação tecnicista e de adestramento desde a infância a fim de condicionar o futuro adulto a repetir ações - a ponto de comprometer a individualidade positiva, ou seja, somos uma sociedade com 'indivíduos' condicionados a pensarem de um único jeito, em um único caminho. É natural que pela diversidade cultural existente em nosso planeta, isso ainda não seja uma regra. O fato dessa diversidade ainda existir e pela aculturação, o indivíduo ainda pode experimentar, engatinhando como um bebê ao contato de uma nova cultura. As relações se dão em campo e/ou agrupamento, sendo que uma linha de segregação entre esses dois tipos é mais para definir, uma vez que ambas se misturam. As de campo, dar-se-iam mais na especificidade enquanto as de agrupamento, de maneira mais generalizada. Ao observarmos um fenômeno, teremos sempre em vista este fenômeno de maneira integral, totalitária. Por mais que recortemos ou em partes ou em níveis, o todo não pode ser esquecido. Estes mesmos fenômenos terão diversificadas e definitivas formas. A estruturação, ordenação, interligação e relacionamento entre os componentes gerarão formas sempre originais. Se pensarmos uma obra de arte, está terá formas diferentes para cada observador e até mesmo para um mesmo observador. Não porque mudou-se a forma anterior. A obra continua a mesma, mas porque talvez o observador não seja o mesmo, a cultura não seja a mesma e até mesmo quando esses últimos não são mais os mesmos, é porque suas formas no presente já não são mais as mesmas. As suas formas passadas não foram mudadas, elas eram o que foram. Não há como voltar no tempo e mudar. O que se pode e se deve fazer, é criar novas formas e sempre originais. Essa formação nova sempre irá desequilibrar o observador perante o fenômeno, pois buscando um equilíbrio precisará ordenar sempre a cada percepção.

Capítulo V.

"O indivíduo talvez discorde de certas aspirações formuladas pelo contexto cultural; mesmo assim, é deste contexto que ele partirá para a crítica." (pg. 101)

"O homem desdobra o seu ser social em formas culturais. O estilo, por exemplo (...) O estilo é forma de cultura." (pg. 102)

"Para ilustrar o diálogo constante e dinâmico entre o contexto cultural/padrão de valores e a criatividade individual/valores individuais, escolhemos a problemática da perspectiva." (pg. 104)

"A perspectiva é um sistema de representação do espaço. Projetadas sobre uma superfície, as figuras de objetos ocupam, em planos superpostos, determinadas posições de proximidade e de distância. segundo o seu distanciamento, os objetos aparentam certas alterações de tamanho, de cor, de ângulo de luz e de orientação no espaço. Tanto os objetos como os espaços intermitentes são vistos afastarem-se progressivamente para o fundo, partindo de um plano frontal que corresponde à posição do espectador. Esse afastamento ocorre num movimento visual constante e graduado em contínuas diminuições, e dele resulta uma visão integrada da profundidade do espaço na forma de uma sequência única, unificada e causal. É a visão da perspectiva." (pg. 104)

"A forma da perspectiva contém em suas ordenações um significado que, como valor, se coloca fora da cosmovisão medieval. Implica não só uma materialização do espaço, mas sobretudo implica uma atitude racionalista ante a materialização. Essa atitude de modo algum cabia nos valores vigentes. Não se coadunava à noção de primazia do espírito onde a matéria era considerada perecível e, principalmente, desprezível, e onde ao espiritual, exclusivamente, cabiam as qualificações positivas e válidas da vida." (pg. 106)

"Na arte moderna, não se encontra a perspectiva como configuração do espaço. Seria impossível atribuir esse fato a qualquer tipo de ignorância. A perspectiva é conhecida por nós. Ela está sendo ensinada nas escolas e é profissionalmente praticada; um arquiteto, um desenhista industrial, ao projetar uma mesa, lançara mão da perspectiva. Mas hoje a perspectiva representa apenas uma técnica de projeção, um método. Deixou de ser uma forma expressiva.." (pg 116)

"Sua temática não é mais o espaço, e sim as emoções, o impacto de forças que agem sobre o homem, em termos de emoção: tensão, agitação, excitação, atomização. Como é formulada, representa uma visão nada reconfortante, quase sem esperanças. Nela, Pollock releva o drama do indivíduo na sociedade moderna, do ser humano que é atomizado e se desintegra em sua vida, diante de forças que os esmagam e o absorvem em ritmos incontroláveis." (pg. 122/125)

RESUMO COMENTADO

Apesar de nos relacionarmos e ordenarmos, selecionando a partir de um referencial pessoal e individual, existem valores e contextos culturais que são de ordem coletiva e social. Mesmo que critiquemos uma cultura vigente, transformando-a em outras realidades, ainda assim partiremos desta cultura. Para falar sobre este diálogo, a autora parte da problemática da perspectiva. De como a perspectiva na Idade Média, Renascimento, não era possível de existir enquanto forma expressiva pois ela partia de uma racionalização da matéria no espaço e essa racionalização não era condizente com os valores culturais que cultuavam a espiritualidade em detrimento da matéria, naquela época. Mesmo assim, foi a partir de uma cultura negadora da matéria que se foi possível pensar a perspectiva e iniciar um processo de transformação daquela realidade que com o passar dos anos e mudanças para estilos como o cubismo e o barroco, teve a perspectiva inserida, aceita enquanto expressão artística, reinventada e até mesmo nos tempos modernos, esquecida.

Capítulo VI.

"Quando mudam os comportamentos da criança e mudam as formas de expressão, essa mudança formal não se deve a intenções estéticas. Deve-se ao processo de crescimento e de desenvolvimento da criança, às suas relações afetivas com ela mesma e com o muno adulto, e à sua evolução para níveis de independência interior. Às idades subsequentes, digamos aos 2, 4, 7, 10 anos de vida, normalmente correspondem modificações na forma expressiva. Vale observar, porém, que até uma idade próxima à puberdade, as alterações na linguagem artística - tanto nos elementos usados como na maneira de composição - que ocorrem nas várias fases do crescimento infantil, são surpreendentemente similares em todas as crianças, não obstante diferenças individuais de temperamento e de sensibilidade. As alterações estilísticas pouco variam até de cultura para cultura. Poder-se-ia chamar a esse desenvolvimento quase que de estilo biológico." (pgs. 127/128)

"Se até aqui nos detivemos em alguns aspectos da criatividade infantil pretendíamos em realidade iluminar certos ângulos da criatividade adulta. A criatividade infantil é uma semente que contém em si tudo o que o adulto vai realizar. Interessam-nos as comparações com o mundo infantil para podermos enfocar mais claramente o início dos processos criativos e também o seu desenvolvimento sob determinadas circunstâncias culturais, mas, enquanto fenômeno expressivo, a criação tem implicações diferentes para a criança e para o adulto. Nas crianças, o criar - que está em todo o seu viver e agir - é uma tomada de contato com o mundo, em que a criança muda principalmente a si mesma. Ainda que ela afete o ambiente, ela não o faz intencionalmente; pois tudo o que a criança faz, o faz em função de necessidade de seu próprio crescimento, da busca de ela se realizar. O adulto criativo altera o mundo que o cerca, o mundo físico e psíquico; em suas atividades produtivas ele acrescenta sempre algo em termos de informação, e sobretudo em termos de formação. Nessa sua atuação consciente e intencional, ele pode até transformar os referenciais da cultura em que se baseiam as ordenações que faz e aos quais se reportam os significados de sua ação." (pg. 130)

"Na visão do potencial criador do homem como um potencial estruturador, propomos desvincular a noção da criatividade da busca de genialidade, de originalidade, e mesmo de invenção." (pg. 132,133)

"Os atributos de genial, original e inovador como qualidades que caracterizam a criação, nos foram legados pelo Renascimento. Adquiriram esse sentido valorativo quando, na época, a individualidade procurava sobrepor-se, socialmente, por seus próprios méritos à rígida estratificação medieval, onde a ascendência de classe ou de profissão determinava a posição social da pessoa. Há de se ver o quanto essa situação se modificou em nosso tempo. Ao passo que no Renascimento se avaliavam as qualidades extraordinárias de um trabalho realizado, sempre no domínio de uma técnica plenamente adequada ao que se almejava obter e à altura dos ideais da sociedade, hoje essas noções servem de programação de currículo: 'seja criativo', 'seja genial', 'seja original'. Propõe-se a genialidade como uma maneira de ser, como se o ser criativo fosse manipulável e redutível a comportamentos volitivos, e não fosse o próprio viver. O fato é que o excepcional é valorizado indiscriminadamente sob as mais diversas formas sociais (ou associais). Ao mesmo tempo, a excepcionalidade é usada como um parâmetro para aferir o desempenho criativo dos indivíduos. Num quadro cultural como o nosso, de condicionamentos massificados, só é criativo quem consegue ser 'genial' - não alguém que fosse espontâneo, autêntico, imaginativo, sensível; tampouco se concebe que o potencial criador do homem possa desdobrar-se no trabalho ou em função da maturidade alcançada, na visão generosa da convivência humana, pois a própria criatividade é considerada como algo inteiramente à margem do fazer natural." "Na visão do potencial criador do homem como um potencial estruturador, propomos desvincular a noção da criatividade da busca de genialidade, de originalidade, e mesmo de invenção." (pg. 133)

"Não deixa de ser significativo que em nossa sociedade se valorize justamente este aspecto da imaginação humana: o engenhoso, a inventividade intelectual que é relativamente desvinculada da emotividade e do envolvimento em nossa consciência. No presente contexto cultural, a descoberta da novidade passou a ser uma preocupação central, obsessiva até. É o novo, o inédito, o insólito que se procura, não a bem da humanidade e para satisfazer uma necessidade real, mas 'o novo pelo novo', a substituição apenas pela substituição. Numa excitação febril e espasmódica, em parte induzida e em parte já consequência de um processo que gira em ponto morto, é a substituição que substitui - como se substituir em si fosse valor de vida - a pesquisa, o questionamento, o próprio trabalho. É o novo, novíssimo, indubitavelmente melhor porque indubitavelmente mais recente. Qualidades cronológicas logo corroídas pelo tempo." (pg. 136)

"Assim, inventa-se uma criatividade que se condensa, prioritariamente, no ser jovem, transferindo-se para a faixa de adolescência o clímax da produtividade humana e o significado das concretizações de vida, com o maior descaso pelas potencialidades humanas mais amplas. Ressuscita-se novamente a genialidade, só que dessa vez vestida com roupas jovens, como parâmetro de atividades e resultados criativos. Dispensam-se os processos de crescimento e de amadurecimento, os processos de identificação da personalidade, e dispensam-se os tempos internos como de somenos, supérfluos e inúteis para a vida. Em nosso contexto cultural, a maturidade é negada como um valor. Com isso riscam-se os níveis de conscientização espiritual que o homem pode atingir, as verdadeiras dimensões humanas, pois o entusiasmo idealista do jovem é uma coisa, será outra coisa quando esse idealismo, na maturidade, se converter em generosidade e amplitude de compreensão." (OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de criação. pg. 138)

"Um Rembrandt, de talento invulgar, aos 18 anos já se estabelecendo como mestre pintor independente, pinta à maneira de Pieter Lastman (professor de Rembrandt e assim entrando para a posteridade). Ainda aos 30 anos, ou já aos 30 anos, quando se tinha tornado um pintor original e excelente, ao lado de outros pintores originais e excelentes de sua época, da estatura de um Rubens, um Frans Hals, um Vermeer, ainda não era 'Rembrandt'. Ainda por processos íntimos misteriosos, ele haveria de crescer e chegar a ser esse homem singular que conseguiu afirmar o sentido da vida, de infortúnios pessoais em seu caso, num vislumbrar de possibilidades espirituais tão extensas que vêm a criar a essência de uma nova humanidade no homem. Sua solidão, Rembrandt conseguiu transformá-la em força interior, em compaixão e compreensão sempre mais ampla ao aceitar dentro de si a trágica dignidade do existir humano, esse existir-no-saber." (OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de criação. pg. 139)

"Todavia, a equação preço = valor não funciona porque a própria equação - preço igual a valor - não existe. Preço não é igual a valor. Nada 'é igual' a valor. Só o valor é valor. As genuínas realizações humanas são valores. A começar pelos processos de crescimento e de maturação espiritual, tudo o que o homem tem de especificamente humano dentro de si, a compreensão, a inteligência, a generosidade, a ternura, o amor, o respeito, a dignidade, a coragem, a confiança, os relacionamentos afetivos de que o homem é capaz, os conhecimentos e os conteúdos espirituais, são valores. Sua criatividade e suas criações são valores. São valores de produtividade humana, valores de consciência. São intraduzíveis. Não têm preço. " (pg. 143)

RESUMO COMENTADO

É no processo de crescimento que o indivíduo se conhece. Nessa busca pelo conhecimento, reorganiza seu interior - conhecendo-se e transformando-se - e se potencializa em identidade participando responsavelmente na sociedade. Este processo de maturação é imprescindível para a criação, não havendo uma validade para esta evolução criativa perante a um estado de lucidez e saúde, podendo o indivíduo mesmo na velhice continuar seu desenvolvimento. Esta maturação criativa não se desassocia da espiritual, pois assim seria apenas uma invenção, uma inovação. Conforme criamos em dialógo com a nossa sociedade cultural, sofremos um processo predatório competitivo (uma vez que nossa cultura é capitalista e tem como lema a 'lei do mais forte') onde a juventude em sua recente experimentação de vida, vê-se obrigada a realizar grandes feitos tidos erroneamente como originais criações. A genialidade atrapalha o crescimento espontâneo a partir da tua exploração como meta impossível de ser atingida. Criação e genialidade são diferentes pois a segunda refere-se a casos muito específicos e quando tomados como exemplos, metas a serem alcançadas estrangulam o processo criativo pois este nada tem a ver com lugares a serem alcançados mas com o desenrolar natural e orgânico da vida em relação a si e ao outro. Criar é processual, dá-se ao longo da vida, volta-se para a conscientização.

Capítulo VII.

"A criatividade nunca é apenas uma questão individual, mas não deixa de ser questão do indivíduo (..) Não se pode perder de vista que cada pessoa constitui um ser individual, ser in-divísivel em sua personalidade e na combinação única de suas potencialidades. Pensar na maioria dos homens somente como 'massa' (palavra derivada do grego máza, amassar pão), como algo desprovido de espinha dorsal, algo passivo a ser moldado por pressões e condicionamentos 'massificantes', não condiz com o ideal humanista, de respeito por potencialidades especificamente humanas." (pg. 147)

"Ser espontâneo nada tem a ver com ser independente de influências. Isso em si é impossível ao ser humano. Ser espontâneo apenas significa ser coerente consigo mesmo. Este é o problema. Não será impossível, mas fácil também não será. Porque, para ser espontâneo, para viver de modo autêntico e interiormente coerente, o indivíduo teria que ter podido integrar-se em sua personalidade, teria que ter alcançado alguma medida de realização de suas possibilidades específicas, uma medida de conscientização. Nessa medida ele será espontâneo diante das influências." (pg. 147)

"Frente à realidade concreta e em qualquer situação de vida, o indivíduo é delimitado por uma série de fatores (de ordem material, ambiental, social, cultural, e de ordem interna vivencial, afetiva) que se combinam em múltiplos níveis intelectuais e emocionais, em parte tornando-se conhecidos, conscientes e em parte permanecendo desconhecidos, inconscientes. Face à complexidade dos níveis e das qualificações mútuas, o equilíbrio interior é uma verdadeira conquista para o indivíduo, já porque a multitude de limites em tempos e espaços vários, ele a vive. E, no viver, ele próprio se transforma e altera os componentes de seu equilíbrio interior. Mas seja como for, são essas delimitações internas, relacionadas entre si e ordenadas em termos qualificadores, que nos fornecem uma medida de referência para avaliar a realização de nossas potencialidades. são elas que permitem nossa orientação seletiva. Dá-se um processo dialético: somos capazes de ampliar-nos coerentemente porque nos delimitamos coerentemente. Podemos responder à vida espontaneamente e em aberto porque a partir de nossa seletividade estruturamos a abertura à vida. Podemos estabelecer ordenações novas, dar forma aos fenômenos, dar significados, pois ao criar sempre delimitamos." (pg. 149)

"Como é entendida hoje, a liberdade de criação se confunde com a liberdade de expressão pessoal, uma vez que a criação é identificada unicamente com a auto-expressão. Nesse enfoque a liberdade de criar é caracterizada pela opção descompromissada e individual de como criar e o que criar. O ato criador é visto apenas em suas qualificações subjetivas; apenas, também, como ato expressivo, pois os aspectos expressivos predominam sobre os aspectos comunicativos. A obra criada é vista como uma mensagem de vivências pessoais." (pg. 150)

"Em outras palavras, no caso de Akhen-Aton a mudança de culto implicou mais do que apenas uma troca de divindade. Correspondeu a uma nova concepção de vida, a aspirações reformuladas em seu conteúdo espiritual, a um novo conteúdo existencial. É verdade que deparamos com uma constelação de circunstâncias históricas sui generis, onde um único indivíduo formula essa visão de vida e o mesmo indivíduo exerce tamanho poder sobre o contexto social a ponto de impregnar todo o fazer cultural da época. Mas somente por tratar-se de um processo de conscientização e de uma mentalidade nova é que pôde surgir um novo estilo." (pg. 154)

"Desde o século passado, a criação também subentende a expressão pessoal. Nesse sentido mais individualista, ela faz parte dos significados do nosso contexto cultural. Assim, ainda que as condições objetivas variem bastante, pode-se dizer que de um modo geral a liberdade criativa, isto é, a liberdade de expressão individual é compreendida pela sociedade moderna dentro da ação individual. A sociedade implicitamente propõe a liberdade junto com a ação. Contudo, o problema é mais complexo. Inegavelmente existe hoje uma liberdade, de ação e expressão, maior do que em épocas passadas, com opções pessoais. Essa liberdade deve ser considerada uma aquisição importante da cultura humana ao longo de seu curso histórico. Mas, parar aqui, seria ver uma parte apenas do problema de criação. Se, em termos individuais, se adquiriu uma liberdade diferente da que existia na Idade Média ou mesmo na Grécia, porque também se adquiriu o direito de se pensar na liberdade de expressão como uma questão a ser pensada, é bastante duvidoso se por isso seríamos mais criativos hoje do que o homem medieval ou grego. Em cada contexto cultural ocorre outro tipo de envolvimento. É o envolvimento por valores espirituais que podem permitir ou não a integração da individualidade e , com isso, permitem ou não a realização das potencialidades criativas. O que se questiona aqui é precisamente o conteúdo da liberdade de expressão. Com os envolvimentos de uma sociedade de consumo em que vivemos, onde unicamente nos cabe a função de consumidores - do nascer ao morrer, consumidores - e cujas metas nos chegam como influências corrosivas, pressões, imposições diante das quais é difícil se estruturar e não se perder em superficialidades ou incoerências, com tudo isso coloca-se a liberdade existente como 'a' liberdade. Mas, no que não se permite uma visão crítica das premissas desses envolvimentos, será uma liberdade aparente. Ao mesmo tempo, formula-se para a criação, em termos teóricos, o ideal de uma liberdade absoluta, sem limites. É outra falsificação. Esse tipo de liberdade está fora das possibilidades humanas e, portanto, não tem significado." (pg. 159, 160)

"Por mera habilidade poder-se-ia fazer muita coisa. Resta saber, porém, se esse 'muita coisa' é apenas um fazer por fazer ou se encerra um compromisso interior com aquilo que se está fazendo." (pg. 161)

"Criar é poder relacionar com precisão. Ou melhor ainda, criar é relacionar com adequação. O referencial dos limites permite que nos relacionamentos se use o senso de proporção, se avalie a justeza no que se faça. Se por algum motivo tivéssemos que estabelecer uma única qualificação condicional para o que é criativo, essa qualificação seria a da adequação, não seria a inovação nem a originalidade. seria a maneira justa e apropriada por que se corresponderiam as delimitações de um conteúdo expressivo e as delimitações de uma materialidade (os meios usados para se configurar). Não teríamos menos do que no caso fosse necessário, pois o resultado seria pobre, insuficiente e não-criativo, mas também não teríamos mais do que o necessário, cujo resultado por sua vez seria não-criativo no sentido de não-verdadeiro, irreal, excessivo, talvez até bombástico e vazio (consequentemente, a originalidade em si não é critério de criação)." (pg. 163)

RESUMO COMENTADO

Existe uma ordenação interior e individual que precede à cultura, por exemplo. De uma certa forma, somos influenciados por aquilo que nós temos uma afinidade, a nível de ser criativo espontâneo. É essa ordem que seletivamente nos relaciona afetivamente com as influências. A todo tempo, somos colocados em frente a fenômenos novos - pois que as formas, configurações não se repetem - e a partir de nossa seletividade interior, escolhemos nos relacionar com alguns e não com outros. A liberdade de expressão encontra-se na liberdade de criação mas o contrário nem sempre existe, pois a segunda está aliada ao crescimento e à conscientização enquanto que a primeira pode estar somente aliada à uma expressão consumista, alienada. De qualquer forma a liberdade não é nem absoluta nem imposta. A liberdade é um envolvimento espiritual e de respeito consigo e com o próximo. A delimitação ou limitação não é proibitiva, é ela que possibilita configurar os fenômenos e perceber.