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terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Artigo - O movimento e o não-movimento corporal nas escolas repensados pela técnica do contato improvisação enquanto jogo/móbil em oficina teatral para professores do ensino público.

Introdução.

O presente artigo surge como atividade final de semestre do curso de licenciatura em teatro da UFBA, da disciplina Organização da Educação Brasileira e ministrada pelo docente Carlos Alberto Ferreira da Silva. Este artigo fora escrito segundo orientações feitas pelo professor, onde deveríamos escolher um tema discutido em sala de aula e desenvolvê-lo dialogando com o PCN de artes e outras referências. O tema 'o movimento e o não-movimento corporal nas escolas' foi tirado do texto "A educação e a fábrica de corpos: a dança na escola", da Márcia Strazzacappa. Como pesquisador do PIBIC e orientado pela professora Célida Salume, venho pesquisando a respeito da materialidade nos processos criativos a fim de  sistematizar um repertório de procedimentos criativos em teatro a partir de materiais em potencial, ampliando a formação do profissional de ensino do teatro. O objetivo deste artigo é repensar o tema 'o movimento e o não-movimento corporal nas escolas' a partir da proposição de oficinas teatrais para professores do ensino público utilizando da técnica do contato improvisação enquanto materialidade para o processo criativo. Pensando deste lugar em que ocupo como pesquisador da licenciatura em teatro, é que descubro a importância de se investigar mais a fundo a opressão corporal em que vivemos e da importância do papel do professor de qualquer área de conhecimento e da sua capacitação nessa pesquisa como o orientador entre a sociedade e o indivíduo/aluno/criador. 

"Por isso - porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver - eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar 'olhos vagabundos'..." (ALVES, Rubem. A complicada arte de ver. Folha online, S.Paulo. 2004.).

O movimento e o não-movimento corporal.

O sistema capitalista vigente no Brasil é determinante numa educação adestradora e tecnicista que visa capacitar uma mão de obra oprimida e ignorante a obedecer. Segundo Augusto Boal existem duas classes de indivíduos: os que dominam e os que são dominados. A dominação se dá pelo poder que um indivíduo exerce sobre o outro. Este poder não se concentra numa só pessoa. O poder não é inerte. Ele passa de mão pára mão. O oprimido torna-se o opressor e precisa ser combatido. Seja este, um poder emocional, financeiro, etc. Como dominar uma sociedade pelo capitalismo, por exemplo? Segunda Fayga Ostrower, o ser humano é um ser sensível/consciente/cultural, ou seja, um individuo que vive em meio a uma cultura social e sensivelmente percebendo-a, desenvolve sua consciência. A cultura não é determinante, mas influencia muito na construção consciente do indivíduo. É uma relação dialética esta que existe entre indivíduo e cultura. Se a cultura interferi de forma veemente na conscientização do ser, a própria cultura seria um caminho para a dominação, o 'colonialismo cultural'. Este colonialismo se dá invariavelmente através de uma sensibilidade coagida e alienada de si. Ora, se é através dos sentidos que percebemos, sentimos e refletimos a cerca das experiências de mundo, também será através destes relacionamentos afetivos que a dominação induzirá a um pensamento único e autoritário. E se já somos analfabetos na escrita e na oralidade, esta dominação dos sentidos nos analfabetiza esteticamente a ponto de reprimir nossa criatividade e de nos privar de uma participação mais ativa na nossa própria produção cultural. E é através dos meios de comunicação como televisão, cinema, teatro, música, dança, jornal, revista entre outros que esta dominação se dá com padrões de beleza, de moda e, inclusive, de comportamento. Desde pequenos, somos instruídos a nos comportarmos segundo as especificidades dos gêneros. 'Meninos não choram', 'rosa é cor de menina', 'menino é futebol', 'menina brinca com boneca', 'menino brinca com carro'. Somos seres em criação constante, em evolução e nos privar deste desenvolvimento (espiritualidade) é ir contra as leis que regem a natureza. É experimentando entre acertos e erros que construímos nosso caráter, que construímos uma rede de diversidade biológica e filosófica. Antes das tecnologias atuais, a nossa primeira tecnologia é o nosso corpo. É através dele inclusive que a evolução da tecnologia se dá por possível. Somos corpo. Precisamos dele para falar, ouvir, ver, se comunicar, se expressar. Precisamos dos nossos corpos para criar as máquinas. Mesmo que um indivíduo esteja vegetando em cima de uma cama, seu corpo ainda estará vivo. E é pensando no ser como um corpo orgânico e naturalmente espontâneo como a própria vida que este artigo levanta reflexões a cerca desta opressão corporal que resume em si todas as outras opressões. 

"O indivíduo age no mundo através de seu corpo, mais especificamente através do movimento. É o movimento corporal que possibilita às pessoas se comunicarem, trabalharem, aprenderem, sentirem o mundo e serem sentidos. No entanto, há um preconceito contra o movimento. Solange Arruda, na introdução de seu livro arte do movimento, afirma que 'é mais chic, educado, correto, civilizado e intelectual permanecer rígido'. Os adultos, em sua maioria, não se movimentam e reprimem a soltura das crianças." (STRAZZACAPPA, Márcia. 'A educação e a fábrica de corpos: a dança na escola'.).

Os alunos não podem se expressar corporalmente de maneira espontânea nas instituições escolares. É fato que esse tipo de regime acaba reverberando nesses alunos na sociedade como um todo. Mas enfatizemos a escola. Este tipo de imobilidade corporal vai desde a fila feita para entrar na sala de aula, a disposição das cadeiras na sala, a forma como é feita a chamada até a própria metodologia ultrapassada e tradicional que muitos professores insistem em basear todo o processo-aprendizagem do aluno numa transferência de conhecimentos de ordem horizontal. O aluno assim como o espectador de um teatro, assiste passivamente ao que lhe é apresentado. Se o mesmo não é nem sequer estimulado a pensar sobre o que está vendo, como esperar que seus corpos assumissem outra natureza que não a própria passividade. É preciso repensar o teatro, a escola, a educação. De natureza também educadora, o teatro é uma arma política como toda atividade humana, uma vez que é na atividade que desempenhamos um papel. 

"Este livro procura mostrar que todo teatro é necessariamente político, porque políticas são todas as atividades do homem, e o teatro é uma delas. Os que pretendem separar o teatro da política, pretendem conduzir-nos ao erro - e esta é uma atitude política. Neste livro pretendo igualmente oferecer algumas provas de que o teatro é uma arma. Uma arma muito eficiente. Por isso, é necessário lutar por ele. Por isso, as classes dominantes permanentemente tentam apropriar-se do teatro e utilizá-lo como instrumento de dominação. Ao fazê-lo, modificam o próprio conceito do que seja o 'teatro'. Mas o teatro pode igualmente ser uma arma de liberação. Para isso é necessário criar as formas teatrais correspondentes. É necessário transformar." (BOAL, Augusto. Teatro do oprimido e outras poéticas políticas. pg. 11)

O problema do desempenhar este papel numa determinada atividade é mecanizarmos a ponto de sempre darmos as mesmas respostas e soluções para diferentes problemas. Um dos papéis não vividos pela educação escolar é o de capacitar e mobilizar o aluno a potencializar sua criatividade enquanto indivíduo social. Voltando ao sistema capitalista, todas as atividades humanas serão voltadas para algum fim lucrativo. Assim, a escola e o teatro também. Então, quem tem nas mãos o poder da educação e da arte conduzirá os alunos/espectadores a repetirem o que lhes fora depositado. O capitalismo é tão manipulador que um dos primeiros argumentos para uma sociedade homofóbica repensar sua fobia era o fato de os homossexuais gastarem mais. Aqui, não há a preocupação de pensarmos o corpo do outro como algo sagrado e livre para se movimentar segundo a sua sexualidade. Para além do ato sexual, a sexualidade é também uma expressão corporal, um movimento. O movimento corporal de um indivíduo irá expressar a sua subjetividade que lhe é pessoal e intransferível, apenas comunicadora. Mas esta subjetividade vem perdendo espaço para a simples reprodução de discursos. Enquanto um corpo rico em potencialidades criadoras, não somos estimulados a desenvolver nossos sentidos. Somos viciados em todos os sentidos. Viciados para que dependamos do vício que sustenta o capitalismo. Um indivíduo que além de ver, é mobilizado a enxergar de fato o mundo a sua volta é um ser livre. Ver, falar, ouvir, tocar são movimentos corporais. Nosso corpo é uma grande máquina que precisa de manutenção diária. Como se movimentar se temos a internet, o carro, o delivery? A humanidade caminha para a preguiça do pensar e do movimentar. Como no filme de animação da PIXAR 'Wall-e', um exemplo de capitalismo (até segunda ordem) saudável que se pauta não no dinheiro em si, mas em como transformar o capitalismo para expressar/criar algo altruísta. O filme fala de uma nave onde moram todos os sobreviventes humanos. O planeta terra fora tão consumido que só sobrou lixo, prédios, areia e baratas. Aqui, na terra, tem o Wall-e que é um robô menos avançado que coleta o lixo e o compacta em caixas que vai estocando umas em cima das outras. Lá na nave, os indivíduos estão todos obesos e usam sempre a mesma cor de roupa. Para trocar de roupa, basta apertar um botão. Só se movimentam sentados e pesados em cadeiras que se locomovem por toda a nave, encontrando outros obesos e suas cadeiras e a cor da moda. Ali, comem, bebem e trocam de cor de roupa. Com telas a um palmo dos olhos, várias informações inúteis vão sendo jogadas fazendo uma lavagem cerebral que os anestesia sensivelmente. Comida, bebida e roupa são anunciadas. Quando uma das telas pifa é que um homem percebe que dentro da nave tem uma piscina e parece tocar a mão de uma mulher pela primeira vez. Esta falta do toque, do abraço, do sentir o outro também parece ser trazida no filme 'Crash'. Este sentimento de violência e raiva que vezes morde o estômago sugere ser proveniente desta falta de toque. E a preocupação é justamente os efeitos colaterais que uma alienação corporal pode causar num indivíduo. Doenças psicossociais como depressão, síndrome do pânico entre outras. Esta alienação e deturpação corporal brasileira é fruto da colonização branco-europeia sobre o corpo do negro, escravizando-o e impedindo-o de jogar capoeira, de dançar. Nós, afrodescendentes é que trazemos na pele, na memória também corporal as sequelas de uma história de opressão. A religião foi e ainda é bastante opressora, principalmente, nas questões do corpo, da carne. O movimento sexual estava apenas para a reprodução. Pessoas do mesmo sexo não podiam mover-se sexualmente entre si. Era e ainda é pecado. Mas apesar de não reconhecer a importância dos movimentos corporais enquanto saúde e direito, muitas destas religiões utilizam da linguagem do corpo para os seus rituais de exorcismo. Perceber esta movimentação corporal na natureza também e dialogar como no caso da yoga e da capoeira que se utilizam de elementos da natureza como a posição do cachorro olhando para baixo (yoga) ou a meia-lua de frente (capoeira) é criar relacionando-se. Criar é viver, é dança, é movimento destes pequenos corpos orgânicos em um corpo maior, a Terra. Os iogues acreditam que nós, ocidentais, vivemos mais na ilusão do que em realidade. Nossas consciências são limitadas no amplo sentido do que seja a ignorância quando deveríam ser limitadas no amplo sentido da forma, do configurar. Vivemos uma falsa democracia. Nosso direito de escolha é vetado não pela direta e transparente censura, mas por uma disfarçada ditadura da moda, dos padrões, do que vende mais. Assim, escolhemos o que nos induzem a querer ter. Nossas escolhas, nossos movimentos se reduzem ao ter. E como ser está relacionado ao movimento da vida que se é sendo, ter reduz, ou melhor, imobiliza. Você tem e ponto final. Ser está mais voltado para o gerúndio que é o movimento do verbo. Mesmo que se vá tendo, interrompe-se o movimento da vida no ter. O ter está para a ilusão e o ser para a realidade, pois que assim somos. Até que sejamos consumistas inconscientes, será esta a nossa realidade mesmo que não a vejamos. Não porque não a saibamos, mas pelo fardo peso de não mudarmos. Sem transformação não há conscientização. Saber não nos basta, é preciso que se transforme. 

"O domínio de uma nova linguagem oferece, à pessoa que a domina, uma nova forma de conhecer a realidade, e de transmitir aos demais esse conhecimento. Cada linguagem é absolutamente insubstituível. Todas as linguagens se complementam no mais perfeito e amplo conhecimento do real. Isto é, a realidade é mais perfeita e amplamente conhecida através da soma de todas as linguagens capazes de expressá-la." (BOAL, Augusto. Teatro do oprimido e outras poéticas políticas. pg. 180).

Considerações finais.

A ciência traz em sua origem a dúvida, pois é a pergunta que move a pesquisa, que a norteia. Porém, a ciência tem se encarcerado em paradigmas e verdades absolutas, combatendo todo tipo de estímulo novo. A começar pelo conceito de que teatro não é ciência, não é uma área de conhecimento. 

'A manifestação artística tem em comum com o conhecimento científico, técnico ou filosófico seu caráter de criação e inovação. Essencialmente, o ato criador, em qualquer dessas formas de conhecimento, estrutura e organiza o mundo, respondendo aos desafios que dele emanam, num constante processo de transformação do homem e da realidade circundante. O produto da ação criadora, a inovação, é resultante do acréscimo de novos elementos estruturais ou da modificação de outros. Regido pela necessidade básica de ordenação, o espírito humano cria, continuamente, sua consciência de existir por meio de manifestações diversas.' (PCN)

É pensando no teatro/educação e sua importância na capacitação de professores que finalizo este artigo com considerações importantes a serem feitas. Qual a importância de oficinas teatrais para professores do ensino médio público? Por que a técnica do contato improvisação é funcional ? A educação em arte propicia o desenvolvimento do pensamento artístico e da percepção estética, que caracterizam um modo próprio de ordenar e dar sentido à experiência humana: o aluno desenvolve sua sensibilidade, percepção e imaginação, tanto ao realizar formas artísticas quanto na ação de apreciar e conhecer as formas produzidas por ele e pelos colegas. Uma função igualmente importante que o ensino da arte tem a cumprir diz respeito à dimensão social das manifestações artísticas. A arte de cada cultura revela o modo de perceber, sentir e articular significados e valores que governam os diferentes tipos de relações entre os indivíduos na sociedade. A arte solicita a visão, a escuta e os demais sentidos como portas de entrada para uma compreensão mais significativa das questões sociais. A arte ensina que é possível transformar continuamente a existência, que é preciso mudar referências a cada momento, ser flexível. O objetivo das oficinas teatrais é proporcionar aos professores da rede de ensino médio público a oportunidade de aprenderem a 'pensar com o corpo'. Os professores, ao sentirem no corpo estas descobertas, podem compreender melhor o que se passa nos corpos de seus alunos, crianças ou adolescentes. Ao experimentarem o prazer do movimento e os benefícios que estes trazem, tanto para o físico quanto para o mental, podem ver com outros olhos estas atividades na escola. Ao mexer com o corpo, ao criar, ao se expressar, estes professores estarão adquirindo informações, sensações que seguramente irão, mais tarde, nutrir e enriquecer suas análises e discussões teóricas. 

"Gostaria de ressaltar o comentário de uma professora da rede pública aposentada, Gilcélia, que trabalha atualmente no setor privado. Esta tentou escapar de uma das atividades propostas que consistia em ser carregado pelo grupo em duas situações distintas: com o corpo contraído e com o corpo relaxado. Apesar de sua tentativa de fuga, não teve escapatória e foi logo carregada. Quando se esticava no chão, aguardando ser levantada, não parava de exclamar: Vocês não vão conseguir! Vocês não vão me agüentar! Qual não foi o seu espanto (e também do grupo) ao perceber que estava a dois metros do chão, segura por dezenas de mãos que a suspenderam acima do nível de suas cabeças. Ao final do trabalho, emocionada, percebeu o quanto havia sido importante participar do exercício, pois percebera que na verdade a imagem que tinha de si própria não correspondia à realidade. Sentiu-se mais leve e feliz. Seguramente, esta sensação lhe ensinou muito mais e foi-lhe muito mais importante que qualquer discussão teórica a respeito dos benefícios do desenvolvimento de um trabalho corporal dentro da escola." (STRAZZACAPPA, Márcia. 'A educação e a fábrica de corpos: a dança na escola'.)

Por esses motivos descritos acima é que acredito que o contato improvisação seja uma boa técnica corporal para jogar com os professores. Além da semelhança aos jogos teatrais em seu teor improvisacional e de pergunta/resposta, a forma como o contato com e entre outros corpos produz uma atmosfera de confiança e de concentração estimulando a percepção e aguçando os sentidos, tirando os professores da comodidade e economia de ações. É por meio dessa sensibilização através também do outro que penso estar à chave para a criatividade e, assim, iniciar um processo criativo. 


Referências Bibliográficas.

OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de criação. 2001.
BOAL, Augusto. A Estética do oprimido. 2008.
BOAL, Augusto. O teatro do oprimido e outras poe´ticas políticas. 2005
CURY, Augusto. Análise da Inteligência de Cristo / O mestre da sensibilidade. 2006.
PCN de artes.
STRAZZACAPPA, Márcia. A educação e a fábrica de corpos: a dança na escola.
ALVES, Rubem. A complicada arte de ver. Folhaonline, S.Paulo. 2004.
JAPIASSU, Ricardo. Princípios pedagógicos do teatro. 





terça-feira, 28 de outubro de 2014

Artigo - A capoeira angola enquanto mobilizador no teatro/educação para o desenvolvimento da criatividade do aluno.

Resumo.

Atualmente, a criatividade tem sido limitada, corrompida e impossibilitada de ser realizada nos termos da espontaneidade e da liberdade. Correspondendo, assim, a uma exigência de mercado capitalista predatório que vende a própria cultura como produto do folclore. Buscando reverter este quadro, a capoeira angola surge como possibilidade de mobilizar o indivíduo de forma a se redescobrir verdadeiramente criativo.

Nowadays, the creativity has been limited, corrupted and prevented to be realized spontaneously and freely. In this way, creativity is corresponding to a capitalist market´s exigency that sells his own culture as a folklore´s product. Searching to revert this situation, the capoeira angola rises as a mobilize´s possibility to make the person more truthful creative.

Introdução.

O presente artigo surge do contato com a matéria optativa Capoeira I na Escola de Educação da UFBA e também do seu contato com o PIBIC (Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica)- sendo eu graduando no curso de licenciatura em artes ciências na Escola de Teatro da UFBA - cujo plano de trabalho é dialogar a Estética do Teatro do Oprimido de Augusto Boal com o uso de materialidades no processo da criação cênica.

Durante a matéria, tive contato teórico com diversos autores que pesquisaram a capoeira angola por diferentes perspectivas. Desde um conceito sócio/etnográfico, passando por um ensaio a cerca da sua historiografia até a um ensaio da capoeira angola enquanto pedagogia pluriétnica corporal e ambiental. Já no final do semestre, apresentei um seminário sobre uma tese escrita por uma atriz negra (Evani Tavares) intitulada 'Capoeira angola como treinamento para o ator'. Nesta tese, a Evani relaciona a capoeira com o teatro através da pré-expressividade do ator. Para ela, a capoeira angola e seu caráter de jogo (lúdico/improvisacional) de perguntas e respostas se aproxima e muito da linguagem teatral. Em paralelo, vim dando continuidade a minha pesquisa no PIBIC partindo de referências bibliográficas como Augusto Boal e Fayga Ostrower. Foi lendo o livro 'Criatividade e processos da criação' da Fayga que os primeiros contatos teóricos a cerca da criatividade começaram a se esboçar. Segundo a autora, a criatividade está relacionada ao viver de forma geral. Para ela, o indivíduo criativo é aquele que espontaneamente cria em diálogo consigo, com o outro e com o meio social em que vive, a sua cultura, durante a sua vida. Por isso, somos seres sensíveis/conscientes/culturais. Já nas leituras com Augusto Boal, eu venho descobrindo como essa sensibilidade - onde ocorre a criatividade - estaria sendo reprimida a fim de desconscientizar e controlar o indivíduo também culturalmente.

É na discussão após a apresentação do meu seminário que o artigo começa a se desenhar a partir de pensamentos a cerca de uma opressão cultural negra em favor de uma ainda atual colonização branco européia. E de como vestígios da escravidão em conjunto com as atuais opressões, ainda alienam a sensibilidade de corpos oprimidos, impedidos de livremente se expressarem. E assim, uma criatividade esteriotipada, dependente de conceitos e padrões estéticos e voltada para um mercado capitalista e consumidor.

"Na concepção trazida neste estudo, toda iniciativa que opta por perpetuar uma forma padronizada de treinamento e formação do ator, dissociada de qualquer conexão local está em descompasso com os reclames desta época e com a própria História do teatro. Para que sejam, de fato, eficazes, proposições de formação e treinamento do ator hoje, além de fornecer ferramentas suficientes à sua adequada instrumentação para cena, devem considerar suas necessidades e especificidades culturais, o que possivelmente conduzirá a uma melhor compreensão de si, autocrítica, visão de mundo e diálogo com o universo circundante." (TAVARES, Evani. Capoeira angola como treinamento para o autor. 2008. pgs. 18/19)

Partindo da afirmação de Boal que diz que todo cidadão é ator, aproveito desta citação de Evani para pensar a capoeira angola como treinamento do indivíduo em si. O objetivo deste artigo é fomentar a discussão a cerca da capoeira angola enquanto técnica de treinamento para o indivíduo redescobrir sua criatividade espontânea através do teatro/educação e, assim, libertar-se das correntes da opressão.

Criatividade.

"Criar é, basicamente, formar. É poder dar uma forma a algo novo. Em qualquer que seja o campo de atividade, trata-se, nesse 'novo', de novas coerências que se estabelecem para a mente humana, fenômenos relacionados de modo novo e compreendidos em termos novos. O ato criador abrange, portanto, a capacidade de compreender; e esta, por sua vez, a de relacionar, ordenar, configurar, significar."(OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de criação. 2001. pg. 09)

A criatividade está praticamente interligada a todo o viver. Criamos praticamente o tempo todo. Criamos à medida em que nos relacionamos consigo e com os outros. Criamos individualmente e coletivamente, amparados pelo nosso meio social, nossa cultura. Segundo Fayga Ostrower, o indivíduo é um ser sensível/consciente/cultural, ou seja, um ser que sente e pensa em diálogo com sua cultura. A criatividade se dá no campo da percepção de si mesmo, do outro e do seu meio social. Perceber é sentir pensando a respeito da sensação. A criatividade também se dá no campo da espontaneidade e da liberdade de expressão, seguindo uma delimitação não de fronteiras mas em respeito a especificidade do próprio criar, configurando-se assim formas. Perceber a liberdade isenta de delimitações é colocá-la num lugar pejorativo, não livre. Por exemplo, uma liberdade sem delimitações que permita aos indivíduos de uma sociedade fazerem o que bem querem pode criar absurdos como a escravidão, a homofobia, entre outros. 

"A sociedade humana está (desde o momento que foram criadas as sociedades centralizadas, a propriedade privada e a exploração do homem por outro homem) tomada em todas as suas instâncias por valores morais (culturais) e econômicos, que nutrem as classes privilegiadas com os lucros oriundos das produções coletivas das várias classes de artesãos e técnicos. As hierarquias totalitárias, antes de serem caracterizações morais (culturais) de sociedades com o poder centralizado, "os vários impérios ou hegemonias geopolíticas de todos os tempos", são construídas nas nossas infâncias a partir de valores (éticos) educacionais (lúdicos, moral, sexual, ecológicos, coletivos e espirituais) não solidários (individualistas) presentes, principalmente, nos modelos familiares e escolares que se distanciaram dos propósitos diversificadamente solidários (sustentáveis) bastante expressivos em cada fenômeno e forma de vida que a natureza inventou." (CONCEIÇÃO, Jorge. Capoeira Angola: educação pluriétnica corporal e ambiental. 2009. pg 86).

É aqui que a influência cultural sobre os indivíduos é forte na construção das suas personalidades, porém não é determinante. É preciso perceber que cultura é esta e o seu papel enquanto indivíduo. Individualidade difere de individualismo no sentido de que a primeira é referente a singularidade de cada um e a segunda refere-se ao egoísmo destrutivo que não pensa no coletivo. É neste diálogo entre indivíduo e cultura que ocorrem as transformações, possibilitando a mudança da realidade. A cultura é imprescindível para que o indivíduo se comunique. A cultura agrupa e convenciona comportamentos sociais, valorizando-os como referenciais aos seus indivíduos. Mesmo que um indivíduo não concorde em muitos aspectos com a sua cultura, ele precisará dela para tanto. No nosso atual sistema capitalista de cultura consumista, a criatividade vem sendo deturpada. Segundo Augusto Boal, em seu livro 'A Estética do Oprimido', as classes dominantes vem usando os meios de comunicação para poder impor um único padrão cultural ditando o que é bonito, certo e o que vende mais. Desta forma, competimos predatoriamente para sermos os melhores no atendimento destes padrões. Criar tornou-se vender. Nossa sensibilidade é trocada pelo adestramento de condutas e comportamentos. Uma vez que os modelos e seus conceitos já estão pré-estabelecidos, não experimentamos mais. Apenas, seguimos as instruções. Jornais, revistas, novelas, teatro, cinema, música são veículos para o poder da informação. Quem tem este poder, controla. Uma sociedade consciente é perigosa justamente porque põe em perigo esta relação de poder do maior para o menor. E assim, somos corpos oprimidos que não sabem e não se expressam. Não criam.

Capoeira.

"A Capoeira Angola é uma técnica corporal, "uma forma de conduta e intervenção com o outro, indivíduo ou ambiente", tão pluralmente caracterizada de linguagens, que, o colonizador percebeu o quanto ela significava para as afirmações das identidades ancestrais não só dos Bantos, mas, de todas as identidades étnicas africanas escravizadas. Como as formigas e as abelhas da citação de Capra, os africanos escravizados, não poderiam recuperar seus modos de viver livres a partir de movimentos isolados ou individualistas." CONCEIÇÃO, Jorge. Capoeira Angola: educação pluriétnica corporal e ambiental. 2009. pg. 87)

Somos filhos de uma colonização exploratória, o que justifica inclusive o tipo de educação que é pensado e ensinado em nossas escolas, igrejas, televisão e dentro de nossas próprias casas. Uma educação inquestionável tradicional, passada de geração para geração, chegando a ser cultural. A colonização branco europeu no Brasil buscou extinguir todos e quaisquer sinais de criatividade que ameaçassem o equilíbrio sócio-cultural-econômico vigente na época.  Então,  a liberdade dos negros - que tiveram seus direitos e raízes negados e elevados à condição de crime - tornou-se a ameaça primordial. Ser negro era crime. Praticar sua cultura também. Aliás, sua cultura deixara de ser cultura. Cultura era ser branco e negro ser escravo. Nossos ancestrais negros foram julgados por uma sociedade branca que os marginalizaram culturalmente mas que não conseguiram acorrentar sua sensibilidade e sua consciência que os faziam livres por dentro. Foram encarcerados com outros negros de diferentes partes da África a fim de dificultar a comunicação entre eles e assim, enfraquecer o coletivo. Tiveram sua cultura presa pelas grades, correntes e chibatas mas eram livres em suas memórias e crenças. A capoeira é criada em resposta a esta repressão colonizadora. Em diálogo com a cultura indígena e popular brasileira, a capoeira surge angolana porque praticada em sua maioria por angolanos. E por isso, tão perseguida e proibida, pois reforçava e contava a história de um povo perseguido e escravizado culturalmente. A capoeira é um exemplo claro de criatividade ao configurar-se em uma nova forma de comunicação e expressão. Como toda criação, ela nasce do relacionamento entre os envolvidos. Neste caso, do relacionamento dos negros entre si, dos negros com os brancos e sua cultura de escravidão, dos negros com a sua ancestralidade angolana, dos negros com os folguedos e por aí vai.  É conhecendo sua cultura que o indivíduo se reconhece. Então, por isso era fundamental que se acabasse com a cultura negra na época da colonização. Apagar a identidade de um povo é torná-lo submisso, pois sem história, sem raízes não são donos de si e, sim, escravos. 

Conclusão.

Com o passar dos anos, a capoeira foi deixando de ser crime e sofreu mudanças em sua tradição com a sistematização de Mestre Bimba que a partir da capoeira angola criou a regional, uma capoeira mais técnica e de caráter de competição. Em defesa da tradicional capoeira angola, temos Mestre Pastinha que viveu e passou para seus discípulos os princípios de uma cultura preocupada com a biodiversidade e com a solidariedade. Por estes princípios cosmovisionários (CONCEIÇÃO, 2009) é que a capoeira angola se encontra nesta busca pela mobilização da criatividade seja no aluno, seja no ator, seja no indivíduo em si. Em seu livro 'Capoeira angola: educação pluriétnica corporal e ambiental', Jorge Conceição descreve nosso planeta como um grande corpo orgânico que é nutrido e nutre. Desta forma, ele faz um paralelo interessante entre este corpo maior (planeta) e nossos corpos menores (nós, seres vivos), defendendo a responsabilidade e dádiva que temos em podermos viver uma relação de sustentabilidade não só pelo nosso planeta mas por nós mesmos. Em nossa memória também afrodescendente, trazemos uma coerção da cultura negra que se reflete em nossos corpos. Logo, advindos de uma ditadura corporal histórica, era de se esperar vestígios, sequelas, alienação. As consequências desta e de outras opressões se refletem numa sociedade com doenças psicossociais (CURY, 2006) como depressão, ansiedade, falta de criatividade. Precisamos ser os melhores numa cultura que acredita que tempo é dinheiro. E assim, assassinamos nosso potencial criador para correspondermos doentiamente e injustamente a um padrão de conduta cruel e autoritário. Somos adestrados a vender. É pensando em possibilidades de reverter este quadro que a capoeira angola vem surgindo como um mobilizador de fundamental importância e necessidade não só na área do teatro/educação. É preciso destravar o corpo para expressarmos livremente.

"Portanto, fazer os corpos crescerem psicoespiritualmente e biomecanicamente, está associado ou condicionado às incorporações de valores culturais eticamente solidários que buscamos e somamos ao nosso caráter. Se pudermos criar possibilidades para resignificarmos "o jogo da capoeira", que não percamos tempo; "o jogo lúdico" ("o não jogo competitivo") é cosmovisionário e envolve um, dois e mais indivíduos numa teia ecológica, solidária e espiritualmente digna na diversidade qualquer que seja. Assim, a Capoeira Angola, se apresenta no seu conteúdo mais profundo; meditativa combinada aos valores do princípio único ("princípio da unidade") e capaz de tornar todos vitoriosos!" (CONCEIÇÃO, Jorge. Capoeira Angola: educação pluriétnica corporal e ambiental. 2009. pg 101/102)

Só se é possível jogar/brincar a capoeira a partir do encontro de duas ou mais pessoas. Pois além dos jogadores, existem os músicos que tocam e cantam, dando ritmo e enredo ao jogo. É um jogo de perguntas e respostas corporais, onde o objetivo se encontra na busca de desequilibrar o adversário. Os golpes ou movimentos do conteúdo da capoeira conformam o corpo do jogador para além da sua comodidade e economia de ação (EVANI TAVARES, 2008), uma vez que os comumentes pontos de apoio já cotidianos (os dois pés) são substituídos por mais ou menos pontos e em diferentes partes do corpo. Como a 'meia-lua de compasso', por exemplo, onde o jogador (sendo um compasso) usa de três pontos de apoio: sendo dois nas mãos e um num dos pés. É neste caráter de jogo lúdico que a capoeira angola se aproxima do fazer teatral.

"No século XVIII, Rosseau e Pestalozzi salientavam a importância dos jogos como instrumento formativo, pois além de exercitar o corpo, os sentidos e as aptidões, os jogos também preparavam para a vida em comum e para as relações sociais. Froebel dizia que a criança, para se desenvolver não devia apenas olhar e escutar, mas agir e produzir sobre a natureza (...) O jogo representa um desafio para a criança, a qual ao construir a solução estará desenvolvendo seu lado criador." (FREITAS, Jorge Luiz de. Capoeira infantil: jogos e brincadeiras. 2003. pg. 13 e 17)

Referências Bibliográficas.

FREITAS, Jorge Luiz de. Capoeira infantil: jogos e brincadeiras. 2003. 
CONCEIÇÃO, Jorge. Capoeira Angola: educação pluriétnica corporal e ambiental. 2009. 
OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de criação. 2001.
TAVARES, Evani. Capoeira angola como treinamento para o autor. 2008.
BOAL, Augusto. A Estética do oprimido. 2008.
CURY, Augusto. Análise da Inteligência de Cristo / O mestre da sensibilidade. 2006.